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Entrevista

rkeat: o tesouro escondido da produção nacional

28 Setembro, 2021 - 12:04

Há quem não o conheça, mas está por trás de temas com milhões de visualizações. Está um pouco por todo o lado, mas não se sabe muito acerca de rkeat, um produtor e DJ que tanto faz hip-hop como techno ou até rave mais hardcore.

Márcio Coelho nasceu em Santarém e cresceu na pequena cidade de Almeirim. Aos domingos, a mãe ligava a aparelhagem e “tocava muita música PALOP, zouk, rock, synthpop, R&B”. Da irmã, herdou o gosto pelo trance, que juntava a influências trap, dubstep, electro e drum’n’bass. Aos 12 anos, mudou-se para Cabo Verde. Nessa altura, “já tinha começado a passar som, já estava a perceber que gostava mesmo de música”, refere.

“Sempre tive aquele fascínio pela produção”, uma curiosidade que latejava e perguntava: “como é que eles fazem isto?”. Na altura, “a minha rotina tinha mudado, precisava de algo para fazer”, explica. E foi aí que começou a tentar produzir. Começou pela música eletrónica, no mundo do drum e dubstep. “Já fazia alguns beats, já tinha um nome semelhante antes, mas não estava satisfeito”, lembra, antes de se deparar com rkeat. “Não foi muito pensado, mas senti que era o [nome] certo”.

Em 2016, falava ao Rimas e Batidas de um movimento “trap underground a crescer em Portugal”. “Tinha acabado de chegar a Portugal nessa altura, o trap cá ainda era muito desconhecido do público mais mainstream”, descreve, recordando “os primeiros concertos que houve cá [em Portugal], Goth Money Records, OG Maco”. “Senti logo uma cultura emergente e unida por uma sonoridade. E hoje vê-se: é só ligar a rádio”.

Foi por volta dessa altura que se juntou à portuense XXIII, editora que emergia no Porto pelas mãos de Tiago Ribeiro Torres e Francisca Cunha. Com os olhos postos no future beat (que bebe de trap, dubstep e Deep Medi Musik, bem como hip-hop, R&B e jazz), além de lançamentos online, a XXIII organiza também festas no Porto, e criou recentemente um programa de rádio na Yé Yé – à semelhança da lisboeta Collect, por onde passou este mês. Há cinco anos, XXIII assinava “the changes”, EP com que rkeat explorou, entre outras sonoridades, afrobeat e funk.

Ao chegar a 2020, misturava sonoridades como techno e trap num género que cunhou como future tarraxo. Também autor de techno mais obscuro, arquivou esses experimentos sónicos na sua própria dgdaggerarchive, como foi o caso dos EPs “R” e “WOOW​\​JSA​\​MDJJ”, ou ainda “random;deleted”, bem como dos temas LUNGS e MALKRIADO.

Participou no Super V/A, da Padre Himalaya, lançado em agosto de 2020, com a faixa NOID. “Foi a minha primeira release em vinil; tenho várias memórias de quando estava a fazer a faixa”, relembra. Em outubro, participou na compilação Labanta Braço, ao lado de 37 artistas negros. Organizada pelo Rimas e Batidas e o Raptilário em prol de “todas as vítimas do racismo e da opressão social”, segundo comunicado, a iniciativa surgiu na sequência do assassinato de George Floyd. “A compilação Labanta Braço foi muito importante para mim, pela causa e por saber que a minha música ajudou a contribuir para a mudança”, conta.

Versátil e prolífico, produziu para YUZI o instrumental de #YUZIGANG, em 2017, bem como Live Fast, Die Young, de Fínix MG. Seguiram-se beats para TRVPZ, xtinto, prettieboy johnson e Sippinpurp, como foi o caso de Sauce, single de platina, e Never Walk Alone. Reconhece não sentir “muita diferença a produzir com outras pessoas”. “Para mim, o que diferencia a produção para artistas é não poder ir tão ‘longe’ como vou nas minhas produções pessoais”, acrescenta. Em colaborações, “o artista precisa de ter espaço para cantar e, às vezes, tenho que reduzir nos elementos, por exemplo”.

Recentemente, fez também a produção de faixas como NAVE, de LON3R JOHNY, com quem trabalhou já em múltiplos temas, e S. L. N. N. de Rafa G, além da colaboração com Pedro Mafama para o Calafrio de Mike El Nite. A 9 de julho, editava “RKT001”, uma nova viagem pelas desenvolturas techno, com faixas feitas entre 2020 e 2021, um reflexo da sua sonoridade “a ganhar maturidade”.

Prestes a matar saudades das pistas, diz sentir mais falta da “liberdade” e dos “clubes apertados”. Com Future, Burial e The Advent nas colaborações de sonho, diz não poder falar muito sobre o futuro, mas garante ter alguns EPs na mira. Por agora, ficamos este repertório vasto e distinto, ao qual se junta “RKT002”, já disponível no Bandcamp para compra e escuta integral. E ficamos à espera de mais, claro.

ERRATA: A peça original referia que rkeat não tem milhares de seguidores, mas a verdade é que tem, como nos relembrou um leitor no Facebook.

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