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Entrevista

Mais do que uma loja ou editora, a Collect quer ser “um ponto de encontro entre artistas”

12 Junho, 2021 - 15:54

A Collect é uma editora, rádio, bar, restaurante e loja de discos lisboeta que quer causar impacto em todo o panorama nacional. Estivemos à conversa com João Maria, um dos donos, para sabermos mais sobre a origem e o rumo do projeto.

Este sábado é um sábado especial. Dentro da Collect, celebra-se o Record Store Day, uma iniciativa comemorada em lojas de discos de vários pontos do mundo e que consiste na promoção de alguns eventos dentro das lojas. Desde preços especiais a programações musicais e conversas, há muito para fazer e ouvir na Collect este fim-de-semana. A atividade repete-se também no próximo mês.

Nas prateleiras da loja, descansam discos em segunda mão para todos os gostos e feitios que datam dos anos 80 e vão desde house e techno a hip-hop ou ambient e Moodymann a Drexciya, com curadoria da ordem de João Maria. Nos primeiros dias, a Collect vivia num espaço um pouco “clandestino” mas, mesmo antes de passar para a Rua Nova do Carvalho, há dois anos, já assumia esforços para construir um ponto de encontro entre artistas. A label prepara-se agora para lançar o terceiro disco do catálogo, uma re-edição de temas resgatados dos anos 90 da autoria do duo Slope. Sabe tudo na entrevista abaixo.

CF: Não é comum ver espaços que são restaurantes, bares, rádios, lojas de discos e editoras ao mesmo tempo, pelo menos em Portugal. Como nasceu este tudo-em-um?
JM: Então, este projeto surgiu porque eu, a Mariana [Barosa] e o meu irmão [Bernardo Girão] andávamos a falar já há algum tempo que gostávamos de fazer qualquer coisa juntos. Eu trabalhei muitos anos com a Mariana em festivais e, na indústria da música, fizemos tudo o que há para fazer (e continuamos a fazer). Portanto, a nossa vida nos últimos 20 anos tem sido isto: música. Seja a organizar festivais, seja a fazer bookings, a criar lojas de discos, a fazer editoras, a tocar, produzir, a ter programas de rádio – tudo e mais alguma coisa. E o meu irmão teve trabalho em restauração nos últimos 15 anos. Então, achámos que estava na hora de fazermos qualquer coisa que juntasse a nossa experiência de vida e que nos permitisse continuar a trabalhar naquilo que gostamos de fazer, mas, desta vez, todos juntos. E pronto, foi isso que fizemos. Ligámos as peças e decidimos criar a Collect com este conceito: programa de rádio, loja de discos, bar e restaurante. Neste momento, somos editora também.

Como era a Collect nos primeiros tempos? 
Vai fazer dois anos que estamos neste espaço. Mas, antes de o termos, abrimos mais ou menos um ano antes num sítio meio clandestino, abrimos só como loja de discos e fazíamos alguns eventos. Isto porque a Collect até era para abrir noutro espaço e nós estávamos à espera dessa oportunidade, então, como queríamos lançá-la, pensámos “vamos por a marca a andar, vamos criando alguns conteúdos e no dia em que abrirmos no outro sítio, já temos marca criada e tudo mais, portanto, bora fazer isto”. Nós tínhamos muitos discos em segunda mão e é disso que a loja da Collect essencialmente vive. E pronto, decidimos fazer isso, alguns eventos, e arrancar logo com a loja.

Entretanto, o outro espaço nunca chegou a ir para a frente e surgiu o sítio onde estamos agora. E pronto, passámos para esse espaço passado sete, oito meses. Mas, entretanto, estivemos no outro lado meio clandestino e foi importante para nós, foi bom, foi uma boa experiência. E realmente criámos marca. Portanto quando abrimos já no espaço novo, já havia uma série de gente que nos conhecia e nos seguia. Foi importante.

O nome “Collect” vem de coleção de discos?
O nome Collect vem de coleção, sim, vem da coleção de discos. E é isso: ao fim e ao cabo, Collect é aquilo que nós vamos semeando e colecionando ao longo da nossa vida, não é? Basicamente, é uma coleção de tudo, é uma coleção da vida. E portanto é daí que vem o nome, da nossa experiência e da coleção de discos sem dúvida, mas o nome Collect, depois, adapta-se a quase tudo na nossa vida.

Como funciona a dinâmica da loja de discos?
Neste momento, por causa da pandemia, abrimos de segunda a sexta, das 15h às 20h. Porque a indústria dos discos físicos, ou seja, em local de loja, está parada. Anda muito calminha. Os discos vendem-se muito mais no Discogs hoje em dia, sem dúvida. E tudo o que temos à venda na loja temos também no Discogs. É daí que vem a maior parte das nossas vendas. Eventualmente, quando as coisas retomarem um bocadinho e começar a haver mais movimento na loja física, vamos abrir ao sábado também, com os mesmos horários.

A nível de discos, eu faço a seleção. Essencialmente, diria que 80% do que nós temos anda à volta de discos em segunda mão e o resto são discos recentes e que estão a sair agora, mas são sempre reedições de coisas antigas, coisas de coleção e tudo mais. Portanto, é por aí que queremos ir. Nós queremos ir para o lado de segunda mão e as novidades são sempre coisas que estão a ser reeditadas e originais dos anos 80, 90, dependendo da música. Porque nós fazemos um bocadinho de tudo, essencialmente música eletrónica, house e techno, electro também, mas também temos muita coisa virada para a cena urbana, hip-hop, trip-hop, drum n’ bass… O jazz, o acid jazz, o future jazz. E temos muita coisa de música ambiente e experimental, também.

Têm assim algum disco mais raro?
Algum mais raro… Ao longo dos últimos dois anos temos tido muita coisa rara, dentro de eletrónica. Sei lá, posso dizer que já tivemos os primeiros Underground Resistance, já tivemos discos do Drexcyia, tudo original, do início e meados dos 90. Tivemos um disco do Moodymann muito, muito raro, também. Epá, é muita coisa para estar agora a tentar lembrar-me, mas sim, temos conseguido arranjar um bocadinho de tudo. E dentro da música eletrónica temos tido coisas muito, muito boas mesmo.

Em entrevista à NIT, disseste que o importante numa coleção de discos é “a qualidade, não a quantidade”. Queres dar-nos alguns exemplos de discos que guardas com especial carinho?
Olha, eu acho que esta fase horrível de pandemia que nós passámos, para o lado da música, foi uma coisa muito boa. E isto tem uma explicação, pelo menos para alguém como eu: o facto de estar parado e de não poder tocar, que é o que mais gosto de fazer, também me fez abrir aqui um bocadinho e fez-me começar a explorar coisas que, nos últimos anos, se calhar, não andava a explorar tanto. Porque infelizmente não há dinheiro para tudo e eu, quando tocava regularmente e as coisas estavam abertas e a funcionar normalmente, de alguma forma, quando comprava música, pensava muito na pista e no que poderia fazer como DJ.

O facto de isto ter parado, por um lado, é horrível porque não toco, por outro lado, consegui, porque não tinha essa pressão ou já não estava só fixado na pista, ter tempo para explorar uma série de coisas que eu gostava, mas para as quais não tinha tempo. Quer dizer, tempo se calhar até tinha, mas como não tinha dinheiro para tudo, fazia outras opções. Mas, como nessa altura não havia pistas, eu não precisava de andar a comprar discos de pista e, portanto, comecei a explorar aqui um lado que também me agrada bastante: o lado experimental, mais ambiental. Comprei muito hip-hop antigo, também. Coisas muito antigas, coisas que não são propriamente baratas.

Por outro lado, por estarmos nesta fase, sinto que houve muita gente a reeditar coisas antigas mais experimentais e ambientes. Portanto, houve muitos álbuns que eram caríssimos que foram vendidos a preços normais agora, exatamente porque a música de dança para a pista de dança não se está a vender muito neste momento. Então, as pessoas começaram a agarrar noutros estilos e a acreditar que isso se poderia vender nesta fase, e foi o que aconteceu. E, musicalmente, tem sido muito bom. Tenho enriquecido bastante a minha coleção, sim, por causa da pandemia. Não digo isto com prazer e preferia que a coleção não estivesse mais rica e que não tivesse havido pandemia, mas é o que tem sido e pelo menos tenho isto. Hoje em dia, não tenho tantos discos como tinha antigamente, mas sinto que posso ir a qualquer móvel de discos aqui em casa e, de olhos tapados, tiro um disco e sei que, para mim, é um disco bom e com qualidade.

Acham que o consumo de música em formato físico está a cair em desuso no geral ou se mantém preservado dentro de um nicho de pessoas?
Não, isso já aconteceu, não é? Eu próprio tenho uma editora que faz 10 anos este ano, que é a Assemble Music, mas comecei antes e sempre estive ligado a isso. E nunca mais se vai vender discos como antigamente, disso não há qualquer dúvida. Agora, chegámos a um ponto bom também que é: vendia-se muito, deixou-se de vender, começou-se a vender novamente e agora sinto que a coisa está estável e que já não volta a baixar daqui. Portanto, o vinil veio para ficar, mais uma vez; dentro de um nicho, isso é evidente. Cresceu bastante agora por causa da pandemia, porque havia muita gente que passou tanto tempo em casa que começou a ganhar o bichinho outra vez e a vontade de colecionar discos – e isso notou-se. A Telma [Correia] entrevistou uma pessoa importante do Discogs na Collect, quando ele veio cá, e houve um aumento muito, muito, muito significativo de vendas no Discogs durante a pandemia. Portanto, isso percebe-se que são pessoas que nem sequer são DJs, simplesmente quiseram voltar a colecionar qualquer coisa, algo que lhes desse alguma pica, não é? Já que passamos tanto tempo em casa, é importante esta parte da coleção e dos discos, qualquer coisa palpável, qualquer coisa física mesmo. E, portanto, eu acho que a partir de agora, nós já contamos com um número e esse número não vai baixar. Pode eventualmente até subir um bocadinho, mas baixar, já não baixa.

O que é este Record Store Day?
Acaba por ser um evento a nível mundial, as lojas físicas que querem abraçar este dia normalmente o que fazem é lançar discos especiais nesse dia e vendem também muitas edições especiais. Portanto, as lojas que têm editora vendem e recebem muitos discos especiais exatamente para o Record Store Day. Para além disso, na maior parte das vezes há eventos dentro das lojas, as lojas convidam artistas e fazem uma programação extensa ao longo do dia dentro de variadíssimos estilos. Não é só virado para a eletrónica, vai a todo o lado, é de A a Z. E pronto, nós fazemo-lo sempre desde que temos loja. A diferença é que este ano, – por acaso não sei se o ano passado fizeram isto também, mas é muito recente -, vai haver Record Store Day em junho e julho.

Fala-nos um pouco da linha editorial da Collect.
A Assemble Music é uma editora virada mesmo para eletrónica pura e dura, house, techno e as suas variantes, e só se lançam discos em vinil. Na Collect, é uma coisa muito mais aberta, da mesma forma que o é na nossa loja e na nossa rádio. Na rádio, temos um bocadinho de tudo: artistas de variadíssimos géneros e estamos abertos a tudo o que tenha qualidade. Há um filtro em relação à qualidade, não há um filtro em relação ao género. E é a mesma coisa com a editora: é exatamente isso que nós queremos. O que nós queremos para a rádio e para a loja, queremos para a editora, onde fazemos tanto a parte digital como a física.

E foi o que fizemos por exemplo com o primeiro lançamento da editora, com o Narciso, que é um artista que pouco ou nada tem a ver com a eletrónica e aquilo que fez foi uma coisa virada mais para… Ele estudou jazz e nota-se perfeitamente isso nas produções dele, e é algo muito mais virado para a cena pop, indie, por aí.  O segundo lançamento que fizemos já foi do Pedro Andrade, como DATAHUNTER, e essa sim já é uma cena pura e dura de eletrónica. Eu diria que é muito à volta do mundo da workmusic e por aí. Foi um excelente EP também. Foi uma grande surpresa, eu nunca tinha ouvido música feita pelo Pedro, apesar de o conhecer já há alguns anos e foi uma belíssima surpresa. Aliás, eu tive acesso à música dele através de um programa do DJ Honesty que acontece todos os meses na Collect, o Portfolio, onde ele passa música que ainda não saiu de artistas essencialmente portugueses. Graças a esse programa dele, eu já fechei dois discos com artistas diferentes, e o Pedro Andrade foi um deles.

Temos agora um terceiro disco a sair, uma edição exclusivamente em vinil, dos Slope, um projeto do DJ Honesty e mais um produtor [Daniel Paul] que pertence aos Cab Drivers e à Cabinet Records, editora deles. São quatro temas que saíram em releases diferentes nos anos 90 e nós fizemos um apanhado desses temas e pusemo-los todos num EP. Vai sair dentro de pouco tempo e estamos muito, muito contentes com isto.

Que impacto quer ter a Collect na cena musical lisboeta/nacional?
Nós queremos ter um impacto a nível nacional, mesmo. Apesar de ser um projeto sediado em Lisboa, queremos ter um impacto em todo o país através da divulgação e do apoio da cultura. E sinto mesmo que estamos a fazer isso, não só através dos programas de rádio ou da loja de discos, mas essencialmente porque tem-nos aparecido tanta gente que consome a Collect como espaço para beber um copo, para comer, para comprar um disco, para ouvir um programa de rádio, e que também é artista. As pessoas têm vindo ter connosco e temos tido muito boas surpresas com geração nova e geração antiga também que se calhar nunca se deu a conhecer ou que nunca teve essa oportunidade e dali têm surgido coisas muito interessantes.

Eu e a Mariana estamos ligados a muitos pontos da indústria da música, seja a festivais, editoras ou distribuidoras, seja a clubes ou agências, e portanto é também o nosso papel na Collect receber os artistas ali, tê-los a mostrar o seu trabalho na rádio, mas depois, quando assim faz sentido, tentar também ajudar e tentar fazer com que mais aconteça para esses artistas.

Basicamente, nós queremos que a Collect seja um ponto de encontro entre artistas e que dali nasçam colaborações entre artistas, que as pessoas possam partilhar ideias, experiências e se possam ajudar umas às outras. E, se nós no meio conseguimos ajudar e fazer com que coisas aconteçam e coordenar conversas e tudo mais, esse é o nosso papel e é aquilo que na realidade nos dá pica e que queremos muito que aconteça cada vez. Já está a acontecer! Já estão a acontecer coisas dentro da Collect – é esse o nosso papel e é aquilo que queremos fazer.

Há novidades para a rádio?
Nós fazemos colaborações com outras plataformas e outras rádios. Por exemplo, neste momento, o Pedro Tenreiro, do Porto, fez-nos um convite para a Collect ter um programa na rádio dele, a Yé Yé, portanto tanto a Assemble Music como a Collect vão ter lá um programa semanal, todos os domingos. E isso para nós é excelente, é um reconhecimento. Vindo do Pedro Tenreiro, é sinal de que estamos num bom caminho e de que estamos a fazer coisa bem feita.

Há alguma coisa que gostavas de saber quando começaste na música, mas que só vieste a descobrir mais tarde?
Relativizar as coisas. Basicamente, é isso, se eu soubesse o que sei hoje. É aquela conversa de quando nós ouvimos as pessoas mais velhas a dizer “epá, não te chateies com isso, não vale a pena” e nós, pronto, somos mais novos, temos muita energia e muita vontade de fazer as coisas acontecer. E eu acho que relativizar as coisas é o maior conselho que eu posso dar e contra mim falo, ou melhor, contra mim falei durante muito tempo, não é? Porque, se calhar, não relativizei coisas que deveria ter relativizado e isso fez com que eu perdesse tempo e energia com algo que realmente não valia a pena. E nós quando perdemos tempo e gastamos a nossa energia com coisas que realmente não valem a pena, estamos a deixar de os colocar em coisas que fazem os nossos projetos andar para a frente de uma forma mais saudável e mais positiva. Sei lá, acho que é um bocado isso: é o relativizar a vida. Se eu soubesse… Ou melhor, não é que eu não soubesse na altura, mas não tinha essa capacidade de entender as coisas dessa forma. Hoje em dia tenho e as coisas fazem muito mais sentido.

Uma refeição, uma bebida e um disco. Como seria o teu cenário ideal na Collect?
Uma refeição na Collect, eu diria um hambúrguer: um Crispy Bacon, acompanhado das nossas maravilhosas batatas fritas caseirinhas. Depois, uma degustação das nossas tequilas. Para o disco, eu sou suspeito. Sou eu que faço a seleção portanto quero acreditar que é bem feita e tem qualidade, seja um disco do nosso gosto ou não. Posso pensar num disco agora de repente que esteja disponível… Mas diria mesmo o próximo do catálogo da Collect, o dos Slope, que é um clássico dos anos 90 e acho que toda a gente o deveria ter na sua coleção – toda a gente que gosta de música eletrónica e não só.

De que é que sentes mais falta no pré-pandemia?
O que eu sinto mais falta… Agora estás-me a apanhar aqui num ponto tramado. Olha, o que eu sinto mais falta é de festivais e clubes.

Como se adaptou a Collect a este cenário?
Dentro da Collect, numa altura tão complicada em que as pessoas estão tão receosas e com tanto medo, foi tentar passar a melhor energia possível a todos os nossos clientes. Estar sempre de sorriso na boca, estar sempre bem-disposto, atender bem, cumprir, como é evidente, com as regras que nos são impostas, mas ao mesmo tempo não passar medo. Aquilo que nós queremos passar às pessoas é uma mensagem de: “nós estamos a passar por isto e é horrível, mas a vida tem de continuar e, com todas as limitações e tudo o que é ou não possível, temos de tirar o melhor partido disso”. É isso que tentamos fazer com a melhor disposição que podemos ter.

Fotografia retirada do Facebook

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