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Semibreve: 5 momentos a não perder

28 Outubro, 2021 - 11:51

Todos os atos da iminente edição de Semibreve são a não perder, na verdade, mas temos aqui cinco momentos para estar com olhos e ouvidos bem abertos.

Braga é uma cidade bastante rica cultural e artisticamente. Está repleta de bons artistas (e de diferentes gerações, diga-se) e de outros atores que provam a riqueza dos seus recantos, mas, por vezes, parece que precisamos de provas como este Semibreve para ter certeza disso.

Este é um festival que faz a cidade respirar eletrónica – seja pela música, claro, ou por momentos como instalações artísticas ou conversas – e este ano não será diferente. Aliás, 2021 marca o regresso a uma normalidade que não vimos no ano passado, quando a organização teve de se adaptar às limitações impostas pela pandemia de covid-19.

Mas tal como nesse ano e como em outras edições, neste Semibreve vamos também ter muitas colaborações inéditas que nos enchem as medidas de uma maneira quase incomparável. Basta olhar para a programação e ver que temos, por exemplo, Klara Lewis ao lado de Nik Void e Pedro Maia, Laurel Halo ao lado de Oliver Coates ou até uma colaboração entre Rabih Beaini, Angélica Salvi e Eleonor Picas.

Por entre conversas, concertos, instalações de nomes como o vencedor do último prémio Edigma Semibreve, Christian Skjødt Hasselstrøm, escolhemos cinco momentos que nos chamaram a particular atenção. Mas sejamos sinceros: toda e qualquer confirmação para esta edição é irresistível e prova de que os curadores por trás do festival têm tacto e cuidado nas suas escolhas.

Entre esta quinta-feira 28 e domingo 31, é por Braga que vamos estar para nos deliciarmos com este cartaz. E atenção: à exceção dos concertos marcados para o Theatro Circo, todo o restante festival é gratuito.

De CV & JAB ao foco sobre os coletivos e editoras Mera e Turva, podes encontrar cinco dos muitos destaques deste Semibreve abaixo.

CV & JAB (28 de outubro, 21h30, Santuário do Bom Jesus do Monte)
Este ano, o Semibreve começa no alto da cidade. Para o concerto de abertura do festival, o Bom Jesus recebe Christina Vantzou e John Also Bennett, autênticos mestres de eletrónica ambiente ou experimental que, segundo a organização, “parecem funcionar em perfeita compreensão e complementaridade”.

A primeira colaboração surgiu a propósito de um mural panorâmico da autoria de Zin Taylor. Mapearam-no musicalmente, “de forma serena e inventiva”, num trabalho específico para um determinado lugar, e chamaram-lhe “Thoughts of a Dot as it Travels the Surface”, antecessor do álbum “Landscape Architecture” – os dois discos colaborativos que podemos encontrar no currículo de ambos.

Agora, com o Santuário do Bom Jesus de fundo, a música de CV & JAB vem traçar uma experiência, no mínimo, imersiva – pintar “cores e linhas na atmosfera” ou preencher vazios e produzir “estruturas de intensa psico-fisicalidade”, potenciando a conexão emocional do público. Imagine-se só estes dois compositores a construírem “auras musicais ambient que reconfiguram a tridimensionalidade que nos rodeia”, sim, mas imagine-se isso aliado à tela que é o local deste espetáculo e a relação semiótica que esse traz a esta atuação.

Diz a organização que esta colaboração não foi à sorte e que, além da programação comemorativa do evento, o concerto de CV & JAB marca também “o simbolismo que o festival tem na cidade”. Parece-nos uma justificação mais do que suficiente para a ansiedade que sentimos nesta espera pelo arranque do Semibreve. CF

Zeena Parkins + André Gonçalves (29 de outubro, 21h30, Theatro Circo)
Ainda recentemente vimos André Gonçalves a colaborar com o mestre espanhol Suso Sáiz no viseense Jardins Efémeros e agora já temos outra oportunidade para ver e ouvir a sua eletrónica a acompanhar outro músico excecional, desta feita a irreverente harpista Zeena Parkins no bracarense Semibreve.

Para conhecer Zeena Parkins a fundo, é preciso perder (ou ganhar, aliás) horas e horas de estudo, tal é o seu currículo. Nascida em Detroit, a harpista mudou-se para Nova Iorque em 1984 e foi pouco depois, em 87, que lançou o primeiro álbum em nome próprio, “Something Out There”, no qual já mostrava a experimentação única que desenvolve com o seu instrumento de eleição.

Mas engane-se quem pensa que estas composições são feitas apenas por Zeena Parkins e seus dedos – é isso e muito mais. Afinal, a música usa inúmeros recursos – instrumentos feitos por si, por exemplo, osciladores, samplers e não só – para desenhar algo tão peculiar quanto envolvente e viciante.

Sozinha em palco, Zeena Parkins já seria, provavelmente, motivo suficiente para considerarmos este como um momento a não perder. Mas juntando à equação o patrão da ADDAC System, marca internacionalmente conhecida pela construção de módulos para sintetizadores, então temos certeza de que não podemos deixar passar um segundo que seja desta atuação, tal é a vontade que temos em ver o resultado que sairá das inúmeras probabilidades que podem emergir da estadunidense e do português, olhos nos olhos, num palco como o Theatro Circo.

Rafael Toral (30 de outubro, 21h30, Theatro Circo)
Há quem aborde tempo, há quem aborde espaço, há quem aborde tudo isso e muito mais. Seja com guitarra nas mãos ou com um dos muitos instrumentos construídos por si, Rafael Toral é um daqueles nomes que nos leva por minuciosas viagens que nos ajudam a encontrar significado em conceitos tão complexos quanto subjetivos – mesmo que não os encontremos, é música que estimula essa procura. Toral é um autêntico pintor de paisagens que acompanha os que buscam música ambiente (e experimental e não só) sideral e séria já desde os anos 90, altura em que pôs cá fora trabalhos tão aclamados quanto “Wave Field” ou “Aeriola Frequency”.

E nunca parou. Recentemente, juntou-se a João Pais Filipe para nos levar a Jupiter e até estimulou, por exemplo, as nossas sinapses em inúmeras direções com o seu Space Quartet. É um nome que vê em trabalhos colaborativos um meio de excelência para chegar ao que há de mais “complexo e potencialmente belo” – já colaborou com nomes como Jim O’Rourke, Sei Miguel, Tatsuya Nakatani ou Lee Ranaldo – mas que não tem medo de se refugiar na sua individualidade – nem nos seus instrumentos e experimentações, diga-se.

Em 2014, aliás, mudou-se para uma zona remota, algures nas montanhas da região centro, para ter uma vida mais sustentável, conforme se pode ler no site oficial. E como é claro, não foi isso que o fez parar de incitar os nossos cérebros com a sua magia. No Semibreve, Rafael Toral apresenta “Time Bridges”, um novo trabalho que, segundo o festival, “inaugura uma nova etapa” para o músico. Sabemos que esta será uma “jornada” pelo passado e futuro, uma viagem que será “tanto uma síntese como uma transcendência de ambient, drone e free jazz eletrónico”. E sabemos que é simplesmente imperdível, tanto quanto qualquer trabalho deste autêntico mago da eletrónica. DD

Supersilent (31 de outubro, 22h50, Theatro Circo)
Supersilent é um daqueles projetos que não são assim tão fáceis de definir. Ao escutar, a expressão “eletrónica” não é a que imediatamente usamos para definir a música, embora também nos relembre de movimentos associados a essa. Talvez jazz? Ambient? Bem, na verdade é uma junção destes e muitos outros géneros, que resultam de uma divagação sónica própria de quem se deixa levar pelo instinto, e pelo rasgo criativo momentâneo, com o intuito de criar e não de recriar. Assim segue, há já 24 anos, este trio norueguês que, em cada concerto, apesar de contar com 14 volumes de estúdio no seu repertório, parte do improviso e experimentalismo rumo a uma abordagem desafiante e ousada que resulta em algo novo e, sobretudo, distinto. Dia 31, a guitarra, eletrónica e teclado de Deathprod (Helge Sten) regressam ao Semibreve, desta vez acompanhados pela voz, trompete, bateria, e mais uma panóplia de maquinaria, que os seus colaboradores de longa data, Arve Henriksen e Ståle Storløkken, usarão para encerrar a noite numa atuação que, por todo o carácter empírico que lhes é inerente, será, certamente, irrepetível. RC

Foco (30 e 31 de outubro, 14h30-17h30, gnration)
O último momento que temos a destacar neste Semibreve não é um concerto, mas sim as duas performances duracionais que chegam através da nossa aposta da organização, o chamado “Foco”. O objetivo passa por dar palco a coletivos e editoras nacionais emergentes para que possam apresentar peças de cariz audiovisual pensadas de raiz para o festival e, bem, as escolhas não poderiam ser mais acertadas.

Ambas vão ter lugar no gnration, entre as 14h30 e as 17h30. A primeira, no sábado 30, fica a cargo da Mera, uma equipa que surgiu com o objetivo de mostrar aquilo que as mentes da música eletrónica fazem na cidade no Porto. Para o festival, este coletivo arquitetou “COLAPSO”, uma instalação e performance imersiva que conta com produção e VJ de João Soares (Otsoa), luz e vídeo de João Dinis e sound design e programação de Cláudio Oliveira (Dust Devices). Segundo a própria, esta será uma peça que “precisa da audiência para sobreviver”, dado que os movimentos e ações dos presentes irão influenciar o resultado final deste “COLAPSO”. Curioso, no mínimo.

No domingo 31 há turva, o projeto editorial fundado por Alexandre Alagôa e Luís Neto em 2021. Por lá, no Semibreve, Lorr No, Vasco Lé, funcionário, Alagoa e AG.R97, acompanhados por visuais de AALTAR System, são os convidados para esta peça, também ela desenhada de raiz para o evento. E sendo esta uma plataforma que quer ir além da música, tocando também em outras artes, a premissa para este “Foco” é bem apetecível, como recorda a organização: em Braga, a turva vai apresentar um momento multidisciplinar que envolve concertos, música eletrónica e acústica, performance e artes visuais. DD

É claro que há muito mais para ver e ouvir no Semibreve, até mesmo instalações: entre outras, “Éter”, da Sonoscopia, vai estar pelo Theatro Circo e “What’s This?”, de João Guimarães e Vasco Santos, pelo gnration. Podes consultar a programação na íntegra aqui.

Fotografias por Adriano Ferreira Borges (cedidas pela organização)

Textos por Carina Fernandes, Daniel Duque e Rui Castro

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