AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Uma viagem ao âmago de Alex FX (e da nossa intimidade)

25 Maio, 2022 - 12:59

No sábado passado, Alex FX esteve pelo Passos Manuel, no Porto, para a segunda apresentação do espetáculo audiovisual “Vessels”.

Nem tudo o que se gerou naquele ermo em que estivemos enclausurados foi mau. Para Alex FX, durante os piores períodos da covid-19 no país, as cidades vazias e despidas de egos foram propulsor e inspiração para “Vessels”, espetáculo A/V que teve a segunda apresentação no Porto – esta com uma abordagem ainda mais íntima – depois da passagem pelo Sónar, em Lisboa.

Antes do evento, na descrição oficial, podia ler-se que a performance começaria “impreterivelmente às 22:30” e foi mesmo isso que aconteceu. Aliás, havia até uma contagem decrescente no mesmo ecrã onde manteríamos os olhos durante praticamente toda a performance – a não ser que quiséssemos olhar para Alex FX a manusear toda a maquinaria (e até a guitarra) que tinha diante si.

Não fosse já o contexto da música (e das homenagens que veríamos ao longo da peça) altamente pessoal e emotivo, o lado intimista deste momento era claro no público. Diferentes gerações estavam ali, naquelas cadeiras, para ver e ouvir este nome tão importante para a cultura de eletrónica em Portugal – e logo na sua própria cidade.

Numa viagem composta por 12 temas (e 12 filmes), Alex FX mostrou-nos músicas do futuro EP, como Circle Us e The Strongest Oaths Are Straw, de trabalhos anteriores, como uma versão de RED / BLACK pensada para a ocasião, ou até a composição que assinou para o documentário “Porto Electrónica 1985-2005”. Sempre com um toque próprio e desenhado para esta tão especial apresentação, o músico portuense guiou-nos sem qualquer medo pelo seu âmago.

Visualmente, a performance começou com imagens computadorizadas de florestas vazias (pois claro) e ao longo dos 90 minutos continuaríamos a ser dominados por muito mais aventuras gráficas – desde nuvens de fumo ou formas geométricas, qual metrónomo visual diante nós. E começou da melhor maneira, não estivesse um lado ambiente e cinematográfico bem presente na música deste trabalho de Alex FX.

O espetáculo foi dividido entre vários blocos de músicas e, para alguma surpresa minha, Alex Fernandes aproveitava as pausas para se dirigir ao microfone e deixar algumas palavras. Foi nesses momentos (e nas imagens também) que o músico homenageou pessoas e artistas que, de uma forma ou outra, foram importantes para o seu percurso – desde Vangelis a Magazino, a passar por João Costa ou Jóhann Jóhannsson – e foi também aí que explicou um pouco das motivações por trás deste tão brilhante e envolvente trabalho.

Fotografia por Rui Brandão (retirada do Facebook do artista)

Não conheço Alex FX pessoalmente, mas este momento parece ter servido para o conhecer melhor e para conhecer a humildade e modéstia que o parecem caracterizar. É que, repare-se, o portuense deixou também agradecimentos e homenagens a nomes como Ryuichi Sakamoto ou Lewis Fautzi. No caso do português, Alex agradeceu por este ter tido a “coragem” de incluir Let My Enemies Devour Each Other numa compilação da Faut Section, um tema algo afastado da estética techno da editora que fez também parte do reportório.

Para além de esse momento ser um exemplo claro da semiótica entre música e imagem que se vivia naquela sala, com o lado mais “metal” da natureza a tomar conta do ecrã, foi também um dos mais mexidos da atuação – até na intimidade precisamos de oxigénio como este – e uma prova viva de como Alex FX tem a preocupação de limar a coesão em tudo o que faz.

Usa-se muito a palavra viagem como adjetivo para descrever espetáculos ou discos que nos levam por caminhos mais siderais, mas é difícil não usá-la aqui também. Afinal, em “Vessels”, houve a clara preocupação de apresentar um trilho muito bem pavimentado para caminharmos com liberdade e à vontade, com todo e qualquer momento a transmitirem a clara ideia de que o princípio, meio e fim foram pensados com tato e cuidado.

Alex Fernandes aventura-se pelo mundo da música eletrónica há décadas. Acredito que, para ele, um momento como este seja particularmente comovente. Não se tratava de um momento para fazer dançar, tratava-se antes de um espetáculo em que o músico se pôde abrir por completo, sem medos de dizer tudo o que pensa – não só através da música, mas também das palavras.

No Passos Manuel, que o portuense tão bem conhece, Alex FX fez do seus sentimentos nossos, de tal forma que, segundo o próprio num dos últimos apontamentos ao microfone, este espetáculo dificilmente voltará a acontecer – pelo menos neste formato – tamanha é a “carga emocional” que certos temas têm para si. E nós, presentes, sentimos tudo isso e exprimimo-lo através de muitas palmas – e até uma ovação em pé no final.

“Vessels” foi também uma lição para pessoas que, tal como eu, tantas vezes perdem momentos como este para ficarem isoladas. Mas a vida movimentada das cidades também tem o seu encanto e importância, como na cultura que escrevem diariamente nas ruas ou em espaços como o Passos Manuel, assim como os indivíduos nos podem ajudar a pintar as cores que os nossos egos tantas vezes escondem. E Alex FX ajudou-nos precisamente a não ter medo de enfrentar o nosso próprio âmago.

Fotografia por Rui Brandão (retirada do Facebook do artista)

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