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Reportagem

Um Jardim Sonoro de luxo – e não só na paisagem

19 Setembro, 2022 - 17:21

Foi possível mergulhar num mar de diversos estilos, cores e experiências. Lisboa sorriu-nos de volta, nós agradecemos.

Decorreu entre os dias 9 e 11 e seria a sétima edição de LISB-ON, mas, na verdade, foi a primeira com um novo nome, conceito e espaço. Saída do Parque Eduardo VII, a organização rumou até ao Jardim Keil do Amaral, em Monsanto, onde os festivaleiros encontraram três palcos, em vez de dois, e uma lindíssima vista para o rio, em vez da cidade.

À entrada, a área da restauração e de cashless. À frente encontrávamos o LISB-ON stage, com barracas da Casal Garcia, puffs e muito espaço para deitar, sentar e, claro, dançar. Entre estes dois pontos havia uma subida que nos levaria até ao Secret Stage, o mais pequeno, que ficava a caminho do Lake Stage, aquele que poderíamos chamar de palco secundário.

Todos os anos, o Jardim Sonoro associa-se à Casa dos Animais de Lisboa, doando parte das suas receitas em forma de alimento, assim como todo o dinheiro remanescente nas pulseiras e cartões vendidos durante o evento. Uma causa que deve ser mencionada e que não faltou este ano. E, claro, não voltou a faltar muita música para todos os gostos e feitios.

Alguns de nós chegaram em cima da hora e já havia terminado o live de Maria Callapez e o b2b de Enko e Caroline Lethô, dois atos que tanto queríamos ter visto. Mas ainda havia muito pela frente.

No LISB-ON Stage ouvíamos Rui Maia e Rai, em 2022, numa enorme estrutura em madeira virada de costas para aquele Tejo poético. Enquanto subíamos aquele pequeno, mas cansativo, percurso até ao Lake Stage, no Secret Stage, com paisagem privilegiada para o rio, iam-se propagando os discos da Nugs On Board, sempre com vinis nas mãos. Assim que chegamos ao palco mais longínquo, deparámo-nos com um cubo em madeira onde tocavam Cravo e Diana Oliveira, de óculos de sol postos, com uma onda bem fresca que se misturava com o palco e com as árvores que nos rodeavam.

Na passagem para tomarmos a última refeição do dia, no Secret Stage, estavam Anah e Lumiere a viajar no acid house – pelo menos quando lá chegámos. No LISB-ON Stage, estava Stckman com Velhote do Carmo e Carl Karlsson em formato concerto. Entre house, acapellas e teclas bem funky, ficamos por aqui, sentados, para jantar.

No final daquele daquele prego (muito) especial de 10€, subimos para Amulador. Sabíamos perfeitamente que íamos passar um bom tempo no Lake Stage uma vez que por lá também passariam Vil b2b Temudo, DVS1 e Jeff Mills, respetivamente. Entre as hipnoses e viagens mentais do DJ da invicta fomos até ao palco principal para tomar café, quando encontrámos Filipe Karlsson a assinar um concerto do qual não conseguimos sair. Arriscamo-nos a dizer que foi um dos grandes momentos do festival e que o baterista Martim Seabra tem de estar, também, sublinhado a negrito. Estupendo.

Vil e Temudo já tocavam os tambores e rufos com um toque de hipnose. Ouvimos faixas de Steffi, Truncate e até dos próprios. Após um bom pézinho de samba ficamos para ouvir o set de DVS1, no qual predominava o techno que até chegou a ter um toque de house à mistura. Lições de DJing àquela hora são sempre bem-vindas.

Depois de todo este requinte veio aquele que é sempre sinónimo de excelência: Jeff Mills. A entrada encantadora arrepiou-nos e de que maneira. Foram duas horas carregadas de paisagens de sci-fi e tensão sonora. O cubo mágico estava cheio de sorrisos, abraços e amassos. Entre todo o calor, de longe a longe, passava uma brisa fresca que nos agradava e nos ajudava a aguentar os afro beats mesclados na TR-909. Naquela noite, a floresta virou uma selva. Foi difícil abandonar este espaço e, com muita pena, perdemos nomes como Jan Blomqvist e Michael Mayer, dois destaques do eclético cartaz apresentado pela organização este ano.

É claro que uma noite como essa é cansativa, mas chegámos ao segundo dia com a mesma energia. Na entrada, ouvíamos o arranque do concerto de Yakuza, no LISB-ON Stage, onde, obviamente, permanecemos até ao fim. Não faltaram teclas, basslines funky e drums viciantes, com aquele toque neón rosa roxo da banda.

Subimos até ao Lake Stage. Era a vez do showcase da Aspen. Aqui bombavam-se malhas frescas com minimal e techno à mistura. E não, leitores, nada de foleirada. Fomos mesmo obrigados a dançar com Pedro Duarte, André Costa e Fausto até ao fim! Vimos um bom bocado de Diogo Pandilla LTD, num inédito e curioso formato live, e depois lançámo-nos para o Secret Stage, onde já se batiam os tambores e tablas orientais dos discos de CVLT.

Mantivemo-nos aqui, onde nos aquecemos, não só para fazer aquela descida, como também para ver Kamaal Williams, no LISB-ON Stage. Já o tínhamos ouvido antes, mas nunca neste registo nem ao vivo. Aqui viajamos ao som daquilo que se chama spiritual jazz. Nunca uma hora passou tão rápido e de forma tão subtil e hipnotizante. Lindíssimo. Foi lento, melancólico, com um desfecho mais contente e ligeiramente mais rápido. Fez todo o sentido naquela paisagem verde a céu aberto, onde nos sentimos numa verdadeira sessão de jam, entre os fumos e copos de whisky dos bares de jazz em Nova Orleães.

Não ficámos para ver Jazz Liberatorz, em DJ set, mas subimos, outra vez, para ouvir Silvestre em formato live. Mas que “ganda maluco”. Não houve só música rave, não. O artista falava ao microfone, interagia com o público e havia ainda uma Playstation 1 onde se jogava Gran Turismo. Como sair daqui? Não dava — não só pela espetacular performance, mas também pelo b2b que tanto esperávamos.

Num momento dedicado ao drum’n’bass dos anos 90, DJ Ki b2b Nuno Forte entraram a pé juntos com Atlantis, de LTJ Bukem. Escusado será dizer que nos sentimos de volta às nossas primeiras raves do estilo em Portugal. Entre sinewaves puras, drums crunchy, e os discos e riscos de Rui Ki, que ainda deu um bom serão de scratch, viajámos e dançámos sem parar até ao final. Também conseguimos apanhar quinze minutos de Rams e Honeydrop, que trouxeram a maquinaria toda de casa e deram um espetáculo de house com muito funk e groove.

Rodeados de copos, sorrisos e de uma simpatia clara do público, e depois de ouvirmos parte do showcase da Arpiar, descemos até à cantina para beber um café e ouvir Todd Terje, no palco principal. Demos de caras com DJ Ki e o Nuno Forte a beber umas cervejas, sentámo-nos na mesma mesa e ficamos a falar sobre a música eletrónica em Portugal e, claro, sobre o drum’n’bass. Demos umas gargalhadas a falar do passado, do presente e do futuro. Ter uma banda sonora de fundo com temas de house clássico num momento destes é significativo, tanto quanto a oportunidade que festivais nos dão em ter momentos como este.

No último dia chegámos mais cedo e sabíamos que íamos ficar pelo Secret Stage o tempo (quase) todo. Pedimos desculpa ao nosso editor, mas a oferta naquele palco era mesmo rica.

No cubo mágico estavam Mary B e Luísa. Iam passando uns discos de forma suave com ritmos cosmopolitas orgânicos e coloridos. A música combinava com o verde das árvores e com aquela brisa suave a todo o custo. O gosto era, notavelmente, refinado. Entretanto ouvimos bleeps e clicks vindos do Secret Stage. Havia começado o set de Laura e Brusca. Foi um show perfeitamente enquadrado à hora com faixas de DVS1, Jeroen Search e também Rene Wise. Obviamente ficamos por lá. Seguiu-se Acid Cell. Nunca uma viagem até Detroit foi tão rápida e económica! Não faltaram basslines acid, groove, teclas mellow e muita dança. O produtor trouxe o estúdio às costas com um Korg MS2000, a RD-9, a 303, Torso t1, e uma BOUM, da Oto Machines.

Bateram as 17h, era a vez de Salbany. O jovem que já nos tinha deixado com água na boca no Neopop e não precisamos de dizer que voltou a fazer o mesmo, pois não? Guilherme Alves, de alguma forma, deve ter imaginado o cenário, a paisagem e o clima cinzento. O live-set do produtor fez-se condizer com tudo que o rodeava, incluindo o nevoeiro denso que pairava sobre o Tejo e apagava o outro lado do rio. Ouvimos percussões minimalistas, que estavam em simbiose com todo o momento, tendências dub, soul, e claro uma forte essência de Detroit pelo olhar do artista, com uma assinatura muito, muito própria. No final, o céu sorriu e abriu.

Com uma pista bem composta, Zé Salvador e Jesterr iniciaram o seu set. Entre agulhas a saltar, palcos flutuantes e alguns problemas técnicos, o duo conseguiu ultrapassar os problemas e ofereceu-nos duas horas rasgadas de adrenalina e energia com uma pista a abarrotar e completa de danças funky, basslines grooves e braços no ar. Entre os grooves e congas, do mais novo, e os kicks saturados das 909, do mais velho, o dancefloor estava feito e mais que aquecido e preparado para quem vinha a seguir. Solid Funk e Miguel Neto esmeraram-se no sci-fi e, entre steppers e não só, conseguimos reconhecer a faixa Cyberpunk, de Reeko.

A meio deste set foi obrigatório, e difícil, fazer uma pausa para jantar. Dirigimo-nos à cantina, onde comemos esparguete e almôndegas ao som de Sam The Kid, em DJ set. Ouvimos hip-hop, algum soul, faixas para os b-boys girarem, breaks clássicos e ainda uma remistura da faixa Princesa, de Boss AC.

Não conseguimos tomar o café com bagaço, mas tínhamos o set de Solid Funk e Miguel Neto como sobremesa, algo igualmente prazeroso. Enquanto continuamos a levar chapadas de pratos pesados, a tensão e a ansiedade acumulavam-se para o (nosso) último set da noite.

O último disco acabou de tocar e entraram Steffi e Virginia. A entrada foi óbvia – íamos ter duas horas carregadas de groove da nova e da velha escola. Entre os quatro decks, a magia dos ritmos e dos pratos fora das grids fez-nos dançar. Neste set o que não faltaram foram tombs saturados, subs pesados, mudanças de cores na palete eletrónica, e até a vocal sample de Move Your Body. De forma impressionante, era domingo e a pista manteve-se bem composta até ao final. Os resistentes ficaram. Mas desta vez, terminou à meia-noite. No dia a seguir, trabalhava-se.

É claro que a mudança de local para o Keil do Amaral parece ter trazido alguns contratempos, mas a fluidez do festival e a vontade em entregar uma edição notável foi óbvia. Mais do que isso, o Jardim Sonoro oferece um dos melhores cardápios sónicos para os fãs de eletrónica (e não só), não se regendo por estilos nem se deixando limitar a nível de programação. Este ano, por exemplo, foi particularmente curioso ver a aposta em b2bs nacionais, alguns deles inéditos. É para repetir, pois claro, especialmente se a oferta continuar tão boa quanto aquela que vivenciamos nestes dias.

Obrigado, Jardim Sonoro, por nos ajudares a ganhar força e fôlego para a rentrée.

Fotografias por Rúben José

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