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Daniel Duque

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20 lançamentos internacionais de que gostámos em 2024

7 Janeiro, 2025 - 12:31

De Anderson do Paraíso a Xuri, este apanhado leva-nos por uma imensidão de estilos e abordagens que marcaram a eletrónica em 2024.

Este trabalho de definir os melhores é sempre injusto. Também por isso, evitamos a nomenclatura de “melhores” e referimos antes que estes foram alguns dos lançamentos de que mais gostámos.

Ao contrário da nossa seleção nacional, que será dividida em EPs e álbuns, a internacional surge na mesma peça. Por isso, aqui tanto vais encontrar LPs (os contemplativos discos de Nala Sinephro e Shabaka são dois exemplos) como EPs (Batu e Nick Léon, Carrier, Parris e Verraco), tudo numa tentativa de ser tão abrangente quanto possível. Em matéria de álbuns, por exemplo, tens a dança de Loidis ou o ambient de Xuri.

Ouve e lê as nossas escolhas abaixo.

Vê também:
– 20 álbuns nacionais de que gostámos em 2024
– 20 EPs nacionais de que gostámos em 2024
– 50 lançamentos que não cobrimos em 2024

Anderson do Paraíso – Queridão [Nyege Nyege Tapes]

Se no ano passado havíamos destacado a bruxaria de DJ K em “PANICO NO SUBMUNDO”, em 2024 as atenções viraram-se para Anderson do Paraíso. Também este disco lançado pela Nyege Nyege Tapes, “Queridão” é mais uma prova dos contorcionistas maravilha que pairam na cena de favela funk. Desde Belo Horizonte, Anderson do Paraíso assina uma fórmula experimental, obscura e lenta, repleta de elementos para nos deixar com bass face do início ao fim.

Batu, Nick Léon – Yiu [A Long Strange Dream]

Uma espécie de Timedance meets TraTraTrax. EP pulsante que une duas grandes mentes da música de clube e que transporta quem ouve e dança para uma viagem entre diferentes culturas de pista. Fusão séria e a não perder – em todos os sentidos.

British Murder Boys – Active Agents and House Boys [Downwards]

É verdade: o primeiro álbum do influente duo do som de Birmingham está finalmente aí. Uma espécie de amostra das históricas atuações ao vivo da dupla de Surgeon e Regis, “Active Agents and House Boys” dá-nos a crueza techno que tanto se espera deste nome – e não é só 4/4, atenção – com aquele lado industrial, trazido pelas máquinas e vozes, de que tanto gostamos. Mas, no fim de contas, é um trabalho único no currículo dos British Murder Boys. E a não perder, pois claro.

Carrier – In Spectra

Um dos novos registos de Guy Brewer, outrora Shifted, como Carrier. Breaks doidos e desafiantes, qual matemática, que tanto podem remeter para raízes dub, drum’n’bass ou footwork como para aventuras de João Pais Filipe. Mas não se enganem: “In Spectra” é único, dispensa etiquetas e é da eletrónica mais desafiante que se pode encontrar por aí.

Crizin da Z.O. – Acelero [QTV]

A abertura com Iggor Cavalera arrebata-nos de imediato. O resto idem. Metal, atitude punk, toques de funk carioca. Caos encapsulado naquele que consideramos um dos discos mais peculiares e especiais que ouvimos este ano. Com Cris Onofre, Marcelo Fiedler e Danilo Machado, cantar e dançar o fim do mundo tem outro encanto.

DJ Znobia – Inventor VOL 2 [Nyege Nyege Tapes]

Tantas vezes olhamos e ouvimos novas investidas de kuduro, batida ou outros géneros de dança africana. Aqui, temos um pioneiro do kuduro e tarraxinha em todo esplendor. Cru mas certeiro, entre o mais lento e romântico ou o mais rápido e festivo, o inventor DJ Znobia guia-nos aqui pela multiplicidade e importância da sua música.

GENDEMA – sassy things [Gastón Voss]

Este é daqueles que serve para dançar, sim, mas que é igualmente ideal para mil e outras atividades: deitar no sofá, limpar a casa, trabalhar. Drum’n’bass atmosférico, jazzy, há quem o ponha até em prateleiras IDM. Emotivo, elegante e reconfortante, é 10/10.

Holy Tongue, Shackleton – The Tumbling Psychic Joy of Now [AD93]

O que esperar da colaboração entre Shackleton e o trio de Valentina Magaletti, Al Wootton e Susumu Mukai senão um trabalho brilhante? Trip psicadélica e dub, pronta para nos mandar daqui para um qualquer outro mundo de dimensões desconhecidas e por explorar. Nem que esse mundo seja cá dentro, quando fechamos os olhos e escutamos.

Julius Gabriel – Tales from the Subterranean [Lovers & Lollypops/Ana Ott]

Bem conhecido por cá, o saxofonista alemão Julius Gabriel editou o quinto álbum a solo, naquela que é uma exploração de “novas direções sem medo”, segundo declarações do próprio. O sopro, aliás, só entra no segundo tema – antes e depois disso, loucuras rítmicas como Time Riding. Música para transcender, como é exemplo Transcending, “Tales from the Subterranean” nasceu também da vontade e gosto pelo drone, tanto que Gabriel construiu “um instrumento com uma boquilha dupla, para a prática de respiração circular, a que chamou ‘twin saxophone’”, pode ler-se nas referidas declarações. Palavras à parte, o melhor é mesmo apertar play e mergulhar neste mundo subterrâneo – mas certifica-te de que respiras fundo antes de o fazer.

L.B. Dub Corp – Saturn to Home [Dekmantel]

Mestre Luke Slater a fazer das suas como L.B. Dub Corp. E de baquetas nas mãos. Aura sci-fi a flutuar por entre diferentes géneros (passa até por disco) e a ser acompanhada por nomes tão especiais quanto Robert Owens em You Got Me. Mais uma garantia de qualidade numa discografia já irrepreensível.

Loidis – One Day [Incienso]

Imperdível. Este já anda a partir pistas e há de continuar a fazê-lo. Dub techno, minimal house, música de dança descontraída por este pseudónimo de Huerco S, que a chama de “minimal emo tech”. Loidis é caso sério para ouvir em casa ou no clube.

Nala Sinephro – Endlessness [Warp Records]

Sensibilidade jazz eletrónica a que se tem chamado de space ambient. Nala Sinephro é um dos nomes mais especiais nesses caminhos. “Space 1.8” já o havia provado em 2021, “Endlessness” é a certeza. Logo a abrir, arpejos de synths em comunhão com sopro, cordas, bateria. Delicadeza. Daqueles a que podemos mesmo chamar de viagem.

Nídia & Valentina – Estradas [Latency]

O facto de Nídia e Valentina Magaletti se juntarem num disco colaborativo já é motivo de excitação suficiente para nós. De um lado, uma das mais relevantes DJs e produtoras que andam por cá. Do outro, a incrível percussionista italiana que não é estranha a trabalhar ao lado de portugueses. A melhor parte é que o resultado é aquilo que se esperaria e até mais. Um álbum certeiro e obrigatório marcado por muita exploração rítmica. E não só.

Parris – Passionfruit EP [Can You Feel The Sun]

Sucessor do álbum de 2021 “Soaked In Indigo Moonlight”, “Passionfruit” é o novo trabalho de Parris pela Can You Feel The Sun, selo que partilha com Call Super. EP de quatro faixas que abre com a aditiva e mentalmente circundante why cant rabbits wear cowboy boots, o disco até pode surgir em prateleiras house ou techno, mas a receita inclui muito mais do que isso – polirritmia, por exemplo, ou diferentes coordenadas de clubbing britânico. Cunho próprio imperdível, este.

Shabaka – Perceive Its Beauty, Acknowledge Its Grace [Verve]

Tocou saxofone em bandas como Sons of Kemet mas aqui, a solo, vira-se para a flauta. E para o espiritualismo, diríamos. Obra serena e rica, relembrando-nos da importância de ter calma nesta secularidade. A importância de respirar, até. Álbum profundamente introspetivo, meditativo e especial.

Skee Mask – Resort [Ilian Tape]

Difícil não olhar para Skee Mask como um dos produtores mais excitantes no eixo de breaks-techno-tudo-que-lhe-apetecer – mas sempre com coesão, minúcia e saber. Assinatura própria, aura viciante, porta-estandarte dos catálogos da Ilian Tape. Do ambient do primeiro tema às diferentes explorações rítmicas e de pista na parte final, “Resort” é mais uma daquelas obras à Skee Mask.

UF – Unknown [Kick to Kill]

Estreia em grande do projeto que junta o alemão OAKE ao britânico Samuel Kerridge. Apelidado pelos próprios de “power metal techno”, é um trabalho que resulta de uma comissão feita pelo festival Berlin Atonal. Música áspera com espaço para dança, que tanto pode servir uma sala de concertos como uma pista exigente.

Ulla, Ultrafog – It Means A Lot [Motion Ward]

Um dos discos mais doces e confortáveis do ano. Refúgio. Ambient pop sonhador de que não queremos sair. Guitarras, ambiências convidativas, apontamentos eletrónicos envolvidos em vozes etéreas. Brilhante.

Verraco – Breathe… Godspeed [Timedance]

Nome forte de Medellín, Verraco merece toda a nossa atenção, como já havia provado pela Voam, no ano passado, com “Escándaloo”. Agora pela Timedance, “Breathe… Godspeed” volta a mostrar a abrangência do nome da TraTraTrax: uma receita de dança exemplar com ingredientes vindos da América Latina, do Reino Unido ou da horta que só este colombiano sabe cuidar.

Xuri – Serene Trails [Colectivo Casa Amarela]

Inspirada pelo canto do pássaro araponga, do qual partiu para compor este “Serene Trails”, a dinamarquesa Xuri trouxe em março o fruto da vontade de “fazer algo diferente” depois de “muita música rápida”, como explicou em entrevista à A Cabine. Sorte a nossa. Lançado pelo Colectivo Casa Amarela, este é um trabalho de ambient propulsivo repleto de sons da natureza, arpejos de synths que imprimem ritmo, cordas, a doce voz de Sofie Birch ou a percussão de John Cleworth. Tão convidativo quanto sereno.

Alguns dos textos foram retirados das nossas peças sobre lançamentos mensais

Capa: “The Love Letter”, por Johannes Vermeer

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