Uns para dançar, outros para contemplar. Estes são os nossos álbuns nacionais favoritos do ano passado.
Chegamos ao fim da retrospetiva de 2024 com a nossa seleção de álbuns portugueses. Tarefa árdua e quase impossível, tanto que, no fim da peça, optamos por destacar 10 extra além dos 20 principais.
Novamente, tentamos ser tão ecléticos quanto possível. Se a lista abre com o lado mais pop Ana Lua Caiano, termina com o drone shoegaze de Vile Karimi. Pelo meio, tanto há o ambient de funcionário, Inês Condeço, Paulo Vicente e PMDS, como há techno de Temudo e Vil, drum’n’bass de Molecular, experimentalismo de Gonçalo F Cardoso ou discos tão especiais quanto “Spectral Evolution”, de Rafael Toral, e “Entre”, de sús, entre muitos outros.
Lê e ouve tudo abaixo, incluindo o bónus de 10 discos. Mais uma vez, a ordem da lista é alfabética.
Vê também:
– 20 EPs nacionais de que gostámos em 2024
– 20 lançamentos internacionais de que gostámos em 2024
– 50 lançamentos que não cobrimos em 2024
Ana Lua Caiano – Vou Ficar Neste Quadrado [Glitterbeat Records]
No primeiro álbum, “Vou Ficar Neste Quadrado”, Ana Lua Caiano volta a mostrar como traz para a sua música a contemporaneidade, o toque próprio ou temas fraturantes do dia-a-dia e da secularidade, como a habitação, tal como outros artistas têm cantado por cá (A garota não, ALMA ATA, EU.CLIDES, Herlander). Depois de EPs considerados por nós como uns dos melhores em 2022 e 2023, o álbum não fica nada atrás. Verdadeiro one woman show de tradição oral, letras peculiares, sintetizadores, percussão, loops, dança e tanto mais.
Arctween – Ping-Pong [Madluv Records]
O álbum de estreia de Tito Romão como Arctween é tudo aquilo que se poderia esperar do multi-instrumentista portuense e muito mais. História rica em paisagens e texturas que combina ambient, dub, jazz ou pontual estética lo-fi, é uma viagem imperdível assinada por uma das mentes musicais a ter mais em conta na cidade e no país.
Clothilde – Cross Sections [Holuzam]
O admirável mundo vertiginoso de Clothilde. Difícil descrever. É dela e é para nosso bel-prazer. Tão singular. Assombroso mas paradoxalmente reconfortante. Fechem-se os olhos. Abra-se a mente. Saiamos daqui para um qualquer outro espaço só possível pela relação Sofia Mestre-máquina.
DJ Lycox – Guetto Star [Príncipe]
Uma espécie de afirmação máxima de DJ Lycox, “Guetto Star” é um disco abrangente que mostra a versatilidade do artista, sem nunca largar a coesão ou assinatura própria. Faixas ora festivas ora mais lentas e românticas, há diversas facetas da batida, desde a percussão absurda até linhas de baixo e melodias que transformam cada faixa numa experiência envolvente e única – ouça-se Mortal Kombat para perceber essa riqueza. Arrepiante.
Lê também: DJ Lycox: “A batida pode ser um refúgio”
DJ Vibe – Frequências [V Records]
O simples facto de este ser o álbum de estreia da lenda e ícone da música de dança nacional já é razão suficiente para “Frequências” figurar nesta lista. Mas, para além disso, a sonoridade do disco eleva-o ainda mais ao topo nacional de 2024. Inicialmente exclusivo em vinil, e mais tarde lançado em digital com faixas bónus ao lado de Sam The Kid, “Frequências” não se limita a uma única estética, oferecendo dança que explora coordenadas deep, dub, Chicago ou de breaks – enfim, uma amostra harmoniosa do génio artístico de DJ Vibe, que merece todo o destaque possível.
Lê também: DJ Vibe: “Falar de mim é um pouco estranho, deixo essa leitura para as pessoas”
EVAYA – Abaixo Das Raízes Deste Jardim [Saliva Diva]
A sussurrar à natureza por meio de uma eletrónica pop vanguardista, EVAYA mostra novas partes do seu universo próprio no álbum de estreia, marcado por letras em português que nos preenchem e enriquecem a cada escuta. Se falávamos em “experiência transcendental” no EP de estreia, esse transe é ainda maior em “Abaixo Das Raízes Deste Jardim”. Belíssimo.
Lê também: EVAYA: “Com este Abaixo Das Raízes Deste Jardim, consegui definir mais a minha voz”
Ferro – Everything I’ve Never Said
Prazeroso álbum de estreia de Ferro, nome aveirense que também assina e tem várias coisas a caminho como CARMEN. Aqui, leva-nos a um mundo munido de guitarras ou arpejos de synths inteiramente produzido por si. Ideal para quem gosta de eletrónica melódica, mas não só.
funcionário – Momento Claro [Glossy Mistakes]
Um dos nomes mais especiais da música ambiente em Portugal, desta feita pela madrilena GLOSSY MISTAKES. Trabalho influenciado pelas últimas obras de Jon Hassell e Hiroshi Yoshimura e com companhia de nomes como Gabriel Ferrandini (na bateria do tema homónimo) ou Damian Schwartz (masterização), “Momento Claro” é imperdível e especialmente bem-vindo no mundo célere em que vivemos.
Gonçalo F Cardoso – Exotic Immensity [Discrepant]
Gonçalo F. Cardoso é especial. A Discrepant idem. O 100º lançamento da editora parece uma celebração disso mesmo. “Exotic Immensity” é envolvente até mais não e uma amostra da música do português dos mil e um pseudónimos. Synths ou cordas esparsas, vozes mutadas, field recordings, momentos assombrosos e outros mais luminosos, tudo envolvido numa espécie de abordagem espiritual a acenar à natureza. Um mundo que nos convida a fechar os olhos, a ouvir com toda a atenção e que insiste em não nos largar.
Inês Condeço – Lacuna
Álbum de estreia riquíssimo de Inês Condeço, que passou o último ano a “desenvolver a sua própria linguagem”. Piano, voz, sintetizadores e uma subtileza particular que nos aconchega do primeiro ao último tema.
Molecular – Heritage & Sound [Sofa Sound]
O aguardado álbum de estreia de Molecular, um dos maiores talentos do drum’n’bass português, celebra as fundações e a história do género com respeito e criatividade. Rafael Pinto demonstra o seu engenho ao trazer a sua assinatura única, que combina tradição e contemporaneidade, para assinar um disco rico e vibrante, feito para ouvir, dançar e explorar o universo profundo da sua música.
Nuno Beats – Sai do Coração [Príncipe]
Em “Sai do Coração”, o membro dos RS Produções entra-nos pela coração adentro com um disco de tempo mais lento para ouvir em diferentes momentos – e bem romântico, note-se, como comprovam temas como o homónimo ou Me Cuna, por exemplo. Classe.
Paulo Vicente – O martelo dança e canta antes de se levantar [combustão lenta records.]
Há dois anos, Paulo Vicente bebia da cerâmica para nos trazer o comovente “Céramique Électronique”. Em 2024, em “O martelo dança e canta antes de se levantar”, bebe e capta os “sons e movimentos do cuteleiro Paulo Tuna e do designer de madeiras Leonel Matias”. Na parte inicial mais áspero e industrial do que o antecessor, mas nem por isso menos especial e cativante, o novo álbum envolve-nos novamente numa espécie de ritual ambient do qual não queremos sair.
PMDS – Música para Miradouros [Marca Pistola]
O duo açoriano apresenta em “Música para Miradouros” um álbum que traduz em som a experiência insular. Gravado ao vivo em quatro miradouros de São Miguel, sem pós-produção, o disco tem uma abordagem ambiental e cinemática, com temas que refletem a calma, a contemplação e o aprisionamento sentidos pelos ilhéus. Obra profunda e autêntica.
Lê também: PMDS e a “concretização em música dos sentimentos que têm em relação à condição de ilhéus”
Polido – Hearing Smoke [Holuzam]
“Polido tem vindo a fantasiar com a ideia de música livre ao longo da sua carreira artística”, lia-se na descrição oficial. Música “livre de amarras”, “géneros” ou “desta obsessão moderna” por algoritmos e tanto mais. Caso raro, caso único. “Hearing Smoke” é prova disso. Em parte, o lado algo mais hip-hop de “Plethora” (2014) já o era. Os discos anteriores pela Holuzam também. Sorte a nossa e de quem se abre para este exercício tão especial.
Rafael Toral – Spectral Evolution [Moikai]
Um contínuo de paz, guitarra e instrumentos do Space Program, do próprio Rafael Toral, para ouvir de olhos fechados e de ouvidos bem abertos e atentos. Elogiado em todos os cantos, é um disco emotivo que assinalou o regresso da Moikai, imagine-se, e que Toral considera o seu favorito até à data. Tudo para dar certo.
Lê também: Rafael Toral: Um “reencontro emocional” chamado “Spectral Evolution”
sús – Entre [Raso]
Disco soturno mas esperançoso, “Entre” é o primeiro álbum a solo de sús e foi inteiramente produzido pela própria. Um “processo longo e muito empoderador”, o trabalho traz a unicidade de Susana Neves: vanguarda pop experimental de olhos postos na tradição portuguesa. Brilhante.
Lê também: sús sobre “Entre”: “É uma reflexão sobre abandono e perda diária”
Temudo – Shapeless [HAYES]
Difícil não encontrar pelo menos um tema de que se goste, aqui. LP bomba para qualquer fã de techno – e para qualquer pista, da mais à menos exigente. Sete faixas com a assinatura e complexidade própria de Temudo. Um dos grandes.
Lê também: Temudo: “Fico grato por tudo, mas é fruto de anos e anos de trabalho”
Vil – Birds of Prey [Dolly]
Dúvidas houvesse, o lisboeta dissipa-as com este LP de estreia. Disco que mostra quem é este nome, “Birds of Prey” tem música para qualquer pista – as de techno, sim, mas a de house também. Detroit, dub, groove, techno repleto de acordes e apontamentos house. Vil.
Lê também: Vil: “Birds of Prey é o trabalho que mostra o que sou”
Vile Karimi – Safe From Harm
Assombroso, denso e coeso álbum de Vile Karimi, nome imprescindível da nova cena ambient e experimental portuguesa. Disco emocionante e reconfortante para fãs de drones, hauntology ou até shoegaze.
Lê também: “Abraçar tudo de bom e mau” com Vile Karimi
Mais 10 álbuns nacionais imperdíveis:
Alexandre Centeio – Silvo [Colectivo Casa Amarela]
CITIZEN:KANE – Blow [Maquiavel]
Knok Knok – Camera [Base Recordings]
LANA GASPARØTTI – Dimensions
Lázaro, João Vairinhos – COLINAS [Regulator Records]
Manata – The Golden Age [Nugs on Board]
Mano Jio – 2006 [Moonshine]
Micro Audio Waves – Glimmer
Phaser – Forever Online
Tomé Silva – Quando Voltar Ao Chão [Fera Felina]
Parte dos textos é retirada dos lançamentos mensais.
Capa: “Girl Interrupted at Her Music”, por Johannes Vermeer

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