AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Artigo

Três meses depois, a noite ainda está confinada ao streaming

16 Junho, 2020 - 15:13

O encerramento de clubes e outros espaços começou na segunda semana de março. Em meados de junho, a maioria dos DJs ainda está limitada a passar discos em casa.

Uma das consequências indiretas do novo coronavírus é o aumento abrupto de atuações, DJ sets ou até de conversas via streaming. Não é uma mudança exclusiva do panorama de música eletrónica, mas o confinamento e encerramento de espaços levou a que artistas, clubes, festivais e muitos outros agentes culturais, do nosso país e do mundo, tenham decidido usar estas ferramentas.

É especialmente curioso ver uma mutação destas num mundo como o da música eletrónica, que normalmente tem, além de sentidos como a audição, o lado humano e a interação como máxima. Mas é sabido que o online pode ser um excelente meio para aproximar gentes, o que se revelou como uma solução para contornar o distanciamento social que se tem vivido – aliás, o próprio inventor da World Wide Web, Tim Berners-Lee, criou este meio com o objetivo de exponenciar uma maior democratização de acesso à informação, tendo também em mente o propósito de aproximar pessoas fisicamente distantes.

A simbiose homem-máquina, abordada em 1960 por Joseph Licklider na academia e por nomes como Kraftwerk na música, é mais real do que nunca. Temos sido testemunhas de um período em que é bem observável a forma como as máquinas nos auxiliam no dia-a-dia – neste momento são, por exemplo, meio para a educação. E à data, também DJs continuam a usar o online, ainda que alguns já comecem a regressar a locais como esplanadas, onde tocam para pessoas sentadas. Mas não há previsões para a reabertura de espaços como bares e discotecas.

Os diferentes agentes culturais têm feito esforços para replicar aquilo que se vive em tempos ditos normais, embora, obviamente, seja muito difícil levar a mesma mística até nossas casas. É de referir que, como mencionado por Pedro Fradique, do Lux Frágil, na conversa de abertura das “MIL URL Talks”, este é um período de aprendizagem para muitos. Outros convidados dessa conversa, como Pedro Azevedo, do Musicbox, veem as vantagens que o streaming pode trazer – Filipe Galante (Pixel82) pensa que esta pode ser uma boa plataforma para jovens DJs – mas não é fácil compreender, pelo menos neste momento, de que forma é que estas transmissões podem ser sustentáveis para aqueles que organizam. Cobrar uma entrada digital é uma ideia complexa, especialmente para um meio livre como a internet – mesmo que os alemães da United We Stream já tenham angariado mais de 500.000€ através da sua iniciativa streaming.

Séries de podcasts, playlists e outro tipo de conteúdo marcaram este período para clubes, promotores e não só. Em Portugal, foram e têm sido muitas as iniciativas em formato streaming. A Rádio Quântica foi uma das primeiras a organizar um evento virtual, concretamente o festival de três dias Quantum Leap. Com cerca de 30 atuações, fizeram a festa, promovendo não só um sentido de comunidade, mas dando também um espaço para artistas mostrarem a sua música. E assim como estes, também os lisboetas da Fuse Records e do Lux Frágil, os aveirenses da Ballroom e da Faina, os madeirenses da Tender Events ou, entre outros, os portuenses da Mera fizeram esforços para não cessar atividade, mesmo com as dificuldades impostas por este período pandémico.

“Rave não tem necessariamente de ser associada a clubes”, disse Tânia Almeida que, juntamente com Marcos Ferreira e Tiago Soares, esteve responsável pelo interessante projeto Rádio de Pantufas, um grupo privado no Facebook – com mais de 700 membros à data – que contou com vários DJs a tocar para os membros através do Twitch, numa comunidade virtual que partilhou música e vivências durante mais de dois meses. A Rádio de Pantufas “nasceu num momento ímpar, em que nos vimos privados de estar com os nossos, de criar novas memórias e em que tudo se virou para dentro”, explicou Tânia, referindo ainda a importância do projeto “enquanto unificador de pessoas e difusor de música e esperança”.

Questionada sobre a sua visão deste meio durante o contexto de pandemia, Tânia Almeida refletiu que “a música tem um poder regenerador muito particular, e seria de esperar que, perante a impossibilidade de nos juntarmos, surgisse um meio de a partilhar. Rapidamente se tornou óbvio que o confinamento não acabaria em uma ou duas semanas, e por isso o streaming revelou-se ‘o’ meio”.

João Soares, conhecido por OTSOA no mundo da música, é um dos responsáveis pela Mera, que organizou o festival Domestic Rave durante o mês de maio. A equipa da promotora e editora portuense tinha a sua primeira festa com artistas fora do Porto marcada para a mesma altura em que surgiu a pandemia, deixando os membros “desejosos para que tudo voltasse ao normal o quanto antes”, para que pudessem “investir musical e culturalmente nas noites” da cidade. “Esta vontade não desapareceu e continuamos sempre à procura de formas de podermos trabalhar e não deixar o projeto em stand-by”, explica o DJ e produtor.

Neste período, a Mera apostou em alguns lançamentos no seu catálogo, “mas a vontade de poder tocar persistia”. Daí, inspirados pelo movimento de streamings, decidiram organizar o referido Domestic Rave, evento que juntou mais de 30 artistas neste formato. “Todo o processo [de organização] fez-nos perceber que a vontade não era só nossa, mas sim de todos. Toda a gente está com vontade de trabalhar e fazer o que fazia constantemente, e no fundo, era o ganha-pão da maioria”, explicou João. Por isso, a Mera criou também um crowdfunding “para sensibilizar o público a apoiar os artistas diretamente” – “agora, mais do que nunca, é preciso apoiar os artistas” – num momento que “acabou por ser uma alternativa à festa normal noturna, mas em casa de cada um”.

“O streaming é o meio mais utilizado neste momento devido às condições que vivemos, mas, retomando a vida noturna, vai voltar a ser mais uma ferramenta que será só utilizada em projetos muito específicos”, pensa João Soares, que acredita que “o público no geral quer sentir novamente o que é estar num clube ou ao relento a ouvir música ao vivo e poder libertar-se um pouco da rotina diária”.

E na verdade, hoje já há espetáculos pelo país, como a série de concertos que a Lovers & Lollypops está a organizar em parceria com o CCOP, no Porto, um ciclo que é simultaneamente transmitido para a internet. Mas espetáculos, DJ sets em esplanadas ou até mesmo as festas que andam a acontecer pela Holanda, onde existe a obrigatoriedade do distanciamento social e de lugares sentados, não replicam o mundo do clubbing, que ainda está confinado ao ciberespaço. Até à reabertura de bares e discotecas, parece que não temos outra hipótese senão dançar em casa. Ou no jardim mais próximo.

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