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A Cabine

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Lançamentos favoritos de abril

6 Maio, 2020 - 12:50

16 trabalhos, de EPs a álbuns, para guardar com carinho na memória.

Dawl – Break It Down [Haŵs, 3 de abril]
Num tempo em que as pistas estão encerradas, a efusiva Haŵs reloca a variedade sonora dos seus eventos para a produção musical, e o resultado não poderia ser mais fiel ao ambiente festivo que lhe é notoriamente intrínseco. O creme de la creme deste EP vem da faixa homónima, mas entre o original e o remix do marroquino Kosh, venha o diabo e escolha. Embora que, conhecendo o mafarrico, este provavelmente escolheria ambas e convidar-nos-ia para uma rave bem profana, com curadoria da própria Haŵs – proposta irrecusável, nos tempos que correm.



Farwarmth – Momentary Glow [Planet Mu, 3 de abril]
Membro de projetos como HRNS ou PURGA, Afonso Ferreira regressa ao seu alias Farwarmth com toda a força, concretamente com um excelente álbum editado pela famosa Planet Mu, de Mike Paradinas (μ-Ziq). “Momentary Glow” pode ser descrito como um disco ambient ou experimental, mas a verdade é que é injusto deixar este longa-duração numa simples divisória de uma estante. Com gravações de improvisos de amigos e família, e tantos outros detalhes e layers como recurso, neste trabalho o português desdobra-se e explora a sua unicidade, criando uma história apoteótica de 45 minutos. A não perder.



Mako – Oeuvre [Metalheadz, 6 de abril]
O fundador da Utopia Music, depois de quatro anos de volta deste oeuvre, deixa uma marca com o seu álbum nesta editora intemporal, pela qual já havia passado anteriormente. O LP conta com collabs de Andy Skopes, em Light Cycle, e de Villem e Fields em Liquid Groove. Um álbum longa-duração nas diferentes roupagens do drum’n’bass, desde o liquid até ao drumfunk, com um toque de distorção bem matura e orgânica. A simbiose perfeita entre ambientes divinais, low-ends excessivos e baterias quebradas.



Andrea – Ritorno [Ilian Tape, 9 de abril]
Não é a primeira, e provavelmente não será a última vez que a Ilian Tape perfila na lista dos nossos lançamentos favoritos do mês. Desta feita, foi com o álbum de estreia de Andrea que a editora dos Zenker Brothers chamou a atenção. “Ritorno” é um longa-duração brilhante que conta uma história, como é de esperar num formato como este. A coesão com que o italiano viaja por entre ambient, breakbeat e muito mais é suficiente para nos agarrar por completo e, consequentemente, surgir nesta lista, mas a verdade é que este disco se destaca pela forma como evoca e traz sentimentos até à flor da pele, envolvendo o ouvinte como poucos em abril.



Cravo – EVO [Hayes, 10 de abril]
Cerca de um ano depois de ter lançado o seu primeiro trabalho a solo, Proxy EP, também na sua Hayes Collective, Pedro Cravo, do duo português -2, ressurge através deste EVO, EP que contém seis sublimes faixas de techno com personalidade e impróprias para cardíacos. É de facto interessante perceber como um artista com apenas alguns trabalhos consegue criar uma identidade muito própria, carimbada com o selo de qualidade da Hayes e reproduzida por artistas como Ben Sims, Kaiser e Kwartz, por exemplo.



Vários Artistas – Fuga [Token Records, 10 de abril]
A editora belga Token Records, de Kr!z, apresenta o seu terceiro VA, que conjuga os trabalhos de Nastia Reigel, Stefan Vincent, Border One, Dold, PTTRN, Ribé, Linkan Ray e Mark Broom. Oito faixas onde podemos sentir os diferentes gostos de cada artista, sempre vincadas por uma energia hipnótica e efervescente. É muito difícil destacar uma só faixa, mas se o temos mesmo de fazer, aconselha-se a My Homework Ate My Dog, do sueco Dold, pela singularidade e pela robustez nos graves.



Jacques Torrance – Indoor Therapy [Jacques Torrance, 14 de abril]
Este lançamento composto por cinco temas – três originais e dois remixes, um de Thodén e outro de Porter Brook – é uma viagem pelos ritmos percussivos, tendo por base a música techno, breakbeat e até um toque de elementos do drum’n’bass e jungle. Jacques Torrance trouxe uma estética tribal e contemporânea que nos faz sentir saudades das pistas de dança, e que, esperançosamente, estas faixas venham a fazer parte da banda-sonora de noites vindouras.



Vários Artistas – Estado de Emergência [Weathervane Records, 14 de abril]
A label de Oströl estreou-se nos lançamentos com uma das mais belas compilações nacionais que nos chegou aos ouvidos durante os últimos tempos. Afinal, “Estado de Emergência” reúne vários nomes portugueses, nomes que merecem toda a nossa atenção, especialmente no que diz respeito ao universo ambient, o género com maior presença neste VA – há outros estilos pelo caminho, como é caso de techno. De Sal Grosso ao curador Oströl, a passar por Aires, carga aérea, twistedfreak, UNITEDSTATESOF e muitos outros, esta é uma compilação para ouvir com toda a atenção. E de preferência de olhos fechados num sítio confortável.



Kyam – Path of Compulsion [Unbidden Audio, 17 de abril]
Ainda que seja uma editora que escape aos ouvidos da maioria do público, a Unbidden Audio tem quebrado barreiras no que toca à composição e estética do drum’n’bass com drones, ambientes distorcidos e com uma imagem do que este género soará no futuro ou num universo paralelo. Kyam, o fundador da editora, neste lançamento, mostra uma visão bastante alternativa do estilo pondo à prova texturas, ritmos complexos, kicks marcados e arpeggiators terroríficos com um toque robótico bem obscuro e perturbador. Um artista e uma editora que certamente irá marcar muitos daqueles que procuram uma sonoridade brutalista e tecnológica.



Roza Terenzi – Modern Bliss [Planet Euphorique, 17 de abril]
Neste seu primeiro álbum, que é também o primeiro que a desafiante Planet Euphorique edita, estão nove faixas onde a australiana Roza Terenzi reflete toda a sua experimentação retro-futurista característica, e onde géneros divergentes coexistem de forma intrigante. A nossa escolha vai para aquela faixa, literalmente. That Track (Rewired mix) é “Modern Bliss” no seu esplendor. A combinação daquele kick pujante com a polivalência rítmica robusta, elementos alienígena e vocal dopante perfazem uma fórmula vencedora que se apoderou dos nossos ouvidos durante dias a fio.



Salbany – Natural Runner [Modulhertz, 22 de abril]
“Natural Runner” é o primeiro EP do lisboeta Guilherme Alves, que nos deixa desde já curiosos e com vontade de ouvir o que mais tem para nos mostrar no futuro. Salbany até pode ter influências nas quais se inspira para produzir, mas denota uma vontade de fazer aquilo que lhe vai na alma, sem se cingir a padrões limitados ao longo do seu EP de estreia. O jovem destacou-se, aliás, pelas diferentes e interessantes abordagens que tomou ao longo das seis vibrantes faixas – ainda que em todas tenha o mundo techno como base. É um nome para manter debaixo de olho e este trabalho é prova disso.



Rabu Mazda – Todo Mundo Sabe [40% Foda/Maneiríssimo, 23 de abril]
Leonardo Bindilatti é um dos nomes por trás da Cafetra Records e das bandas Iguanas e Putas Bêbadas, ele que assina como Rabu Mazda nos campos mais eletrónicos da música. Antes deste EP, foi pela sua label que lançou dois trabalhos ao lado de Van Ayres, “Cinza” e “Acacia”. Agora, é pela brasileira 40% Foda/Maneiríssimo que o luso-brasileiro assina o seu primeiro EP a solo, “Todo Mundo Sabe”, uma louca e original aventura com inspirações funk, house ou kuduro que é, simplesmente, imperdível.



João Pais Filipe – Sun Oddly Quiet [Lovers & Lollypops/Holuzam, 24 de abril]
Admitimos que estávamos muito ansiosos pelo lançamento do novo álbum de João Pais Filipe, ao ponto de o entrevistarmos para saber mais sobre o seu background e, claro, sobre “Sun Oddly Quiet”. O percussionista português, mais uma vez, trouxe-nos um mantra sonoro transcendente com ritmos fora do normal induzindo o ouvinte a um estado de meditação. Esta não será a única edição de 2020, contando já com data de lançamento para o seu trabalho com os GNOD e com segundo trabalho com Valentina, como CZN, ainda por revelar. Mas sabemos desde já que serão brilhantes, como é este “Sun Oddly Quiet”.



Nørbak – Praying to Silence [MindTrip, 24 de abril]
Não é por acaso que Nørbak persiste em assinar trabalhos por editoras de renome. O DJ e produtor é uma das maiores promessas do techno nacional, e nomes como Oscar Mulero ou os Slam estão bem cientes disso, tendo lançado EPs do jovem de Amarante nas suas Warm Up e Soma, respetivamente. Desta vez, é pelo selo do argentino Pfirter que o português vem demonstrar por que razão anda a correr as bocas do mundo. “Praying to Silence” conta com quatro faixas bem musculadas, negras e tão profundas que difícil será sair do mundo para o qual cada um dos temas transporta o ouvinte.



Delurdes – Exótica [27 de abril]
João Melo já assinou trabalhos como Mind Safari – contam-se passagens por labels como 1980, Extended Records e até pela norte-americana Jacktone, pela qual lançou dois álbuns – ou como Joan ジョアン, mas estas não foram as únicas vezes que ouvimos o trabalho das mãos deste aveirense – afinal, já ouvimos lançamentos como “IV”, da Rádio Quântica, que conta com masterização de Melo. Mas neste momento, é o pseudónimo Delurdes que merece toda a nossa atenção. Em “Exótica” viaja-se por caminhos dub (e não só) – caminhos tão sonhadores e agradáveis que obrigam a repetir a viagem depois da primeira escuta.



João Vairinhos – Vénia [Regulator Records, 29 de abril]
Este “Vénia” teve direito a notícias pela imprensa nacional e, com toda a certeza, merece o seu lugar nas nossas escolhas do mês de abril. O primeiro lançamento a solo do artista, editado pela label lisboeta, é constituído por três faixas focadas em atmosferas futuristas e rugosas que transpiram distopia, escuridão e tecnologia, sendo que o tema Vala Comum tem direito a uma bateria ao fundo do túnel, com um caráter bem frio, metálico e eerie. Os lançamentos em formato físico, LP, CD e cassete ainda não têm data anunciada, mas vão valer a pena.

Textos por Daniel Duque, Gonçalo Pinto, João Freitas e Rui Castro

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