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Lançamentos favoritos de agosto

5 Setembro, 2020 - 16:41

Já podemos deixar agosto para trás, mas não sem antes recordarmos alguns dos lançamentos que mais nos marcaram ao longo desse mês.

Keisuke – Year of the Crane [Independente, 6 de agosto]
Como projeto DIY e independente, aplaudimos a autonomia (ousadia?) de quem, por um ou outro motivo, resolve editar a sua própria música e a faz chegar aos quatro cantos do mundo. “Year of The Crane” é o lançamento mais recente do britânico Keisuke, que exibe todo o esplendor do seu deep house e techno em três faixas super consistentes, de moods distintos. Não é à toa que já tem um lançamento em vinil agendado para este ano pela Phonica Records.



Serpente – Fé/Vazio [Ecstatic, 6 de agosto]
No ano passado, Serpente lançou por esta editora “Parada”, um disco em jeito de homenagem ao álbum de Prince “Parade”; este ano, um trabalho cujo título remete para o split “Faith/Void”, lançado em 1982 pela Dischord. O produtor também conhecido como Ondness, que integra a dupla Sabre, mostra aqui por que razão o seu tempo em estúdio salta à vista de tudo e todos. Inspirando-se em inúmeros géneros, do breakbeat ao techno, a passar por IDM e não só, Bruno Silva assina um lançamento singular que, ainda que repleto de experimentação, assenta como uma luva desde a primeira faixa. É pôr o som bem alto e viajar.



ØTTA, P Risco – Plus One [Stroberload, 11 de agosto]
Eis que se juntam dois DJs das sonoridades mais duras, uma ameaça invisível e uma quarentena numa batedeira. É de esperar uma malha brutal, daqueles ringues sónicos onde a dança liberta, estão a ver? É o que ØTTA e P Risco entregam em “Plus One”, o terceiro lançamento da Stroberload, ramificação da Jaded. E as raízes estão bem assentes na vibe apocalíptica que assombra a cena underground de Londres. Em quatro faixas que traduzem o caos de 2020, é a portuguesa Carlota Neves (ØTTA) ao lado do italiano Antonio Prisco (P Risco) quem deixa a fúria ganhar vida na música.



Sirens of Lesbos – Zeus remixes [Sirens Of Lesbos, 14 de agosto]
A eletrónica tem destas coisas. Não conhecíamos os Sirens Of Lesbos, banda suíça de vertentes multidisciplinares, mas esta série de remixes levou-nos até ela e não podíamos estar mais entusiasmados com a descoberta. A faixa original já foi lançada em março, e é incrivelmente dopante, mas estes remixes transportam-na diretamente para o nosso campo da eletrónica. Espreitem o italo disco mais dançável da versão de Gerd Janson ou o broken beat de Shy One, que não se vão arrepender.



Toada – Poema Colectivo [Plūma Records, 14 de agosto]
É injusto olhar para este “Poema Colectivo” como um simples lançamento que recai sob categorias que podem variar entre ambient, electronica ou leftfield. No sucessor do álbum “Cambiante”, lançado também através da sua Plūma Records, Toada volta a agarrar-nos com sons sintetizados e melancólicos, criando melodias e ritmos que nos invadem e tornam reféns, até que se dissipam sem deixarem de fazer parte de nós. Aqui, Valdir da Silva pretende refletir sobre problemas do mundo, como é caso da desigualdade social, mas não se esquece de deixar uma mensagem de esperança. Poesia.



Fanu – Legacy [Metalheadz, 17 de agosto]
Está na altura de pôr (finalmente) de lado o rótulo de “oldschool”, e este lançamento é a prova disso mesmo. Um peso pesado em flow, groove e drums programados, Fanu é um mestre na selecção de samples, breaks e atmosferas frias. Do drum’n’bass ao jungle e, até, ao breakbeat. Um EP de quatro faixas que soam exatamente como a música urbana deve ser. Se és fã de battles de b-boy, então prepara-te, Arctic Oscilations é fogo.



Tipo Stereo – Nzila [Infinita, 17 de agosto]
Há muita coisa boa em Luanda. “Nzila” é o mais recente projeto de Tipo Stereo, terceiro lançamento mensal consecutivo do prolífico multi-instrumentista com um pé em Lisboa e outro na capital de Angola. Provedor de faíscas sónicas, “aquele baixo!” e uma genialidade cósmico-tropical, o autor de “WHY LO-FI” e “Língua” mistura e condimenta os seus instrumentais com influências e derivação do que de melhor há nas suas duas terras. Um EP a não perder.



IAN – RaiVera [Vespertine Records, 21 de agosto]
Potenciada pela fusão de uma inquestionável mestria dos moldes sinfónicos com a irreverência de quem sabe como e quando quebrá-los, a violinista da Orquestra Sinfónica do Porto estreia-se num registo mais livre com “RaiVera”. Na realidade paralela onde IAN substitui Ianina Khmelik, vigora o estereótipo de rebeldia explosiva que se alimenta da repressão. Mas, para moldar a fúria quase adolescente que transborda em faixas como “Good Girl”, IAN serve-se da sabedoria associada ao seu percurso profissional sem nunca a deixar domar o seu impulso criativo libertário. Com participações de Nuno Gonçalves na produção e Pedro Oliveira, dos Sétima Legião, a dar voz a um dos temas, RaiVera serve de prova concreta da magia que acontece quando damos asas aos mais treinados em pautas rigorosas.



Forest Drive West – Terminus EP [R&S, 21 de agosto]
É impressionante como a evolução tecnológica na música continua, seja ela na estética, na engenharia ou na manipulação e edição de som. Mas neste caso é na sua forma e cor. Forest Drive West estreia-se na R&S com um lançamento de requinte, e em que ele próprio apresenta uma evolução – ou, aliás, uma nova faceta. Paisagens cinzentas com um toque de tropicalidade nos ritmos, a espiral de hipnose é constante.



Vários Artistas – Karakter Vol. 1 [Karakter, 24 de agosto]
É fechar os olhos e deixarmo-nos ir como que de foguetão para outro planeta: o primeiro VA da Karakter mais parece um giveaway da NASA. A travessia tem início com uma faixa “mid-paced cosmic disco” que Switchdance e Twofold desencantaram nos confins de um disco rígido. Manycure muda o tom como quem procura segredos atrás das nebulosas, numa melodia que parece desafiar a ordem das coisas. É, então, a vez dos internacionais Aditya Permana e Lott, cujos sintetizadores cintilam ao ritmo do filme “2001: A Space Odyssey” com uma progressão quase alienígena. Pedro Martins termina a compilação e apaga as estrelas, depois de as deixar ao rubro num convite para uma dança pelo éter.



VSO – Space Dust [Phase Response, 24 de agosto]
Com o querido mês de agosto chega “Space Dust”. Mais do que uma viagem lunar, VSO viaja por uma órbita que toca quase todos os espectros da música de dança. É Vasco Oliveira quem une techno, trance, electro, jungle ou breakbeat num ousado acervo que abre caminho para a Phase Response, a label recém-criada ao lado de Renato Viana. Numa galáxia onde as estrelas brilham ao som de percussões exasperadas e synthlines ácidas, VSO deixa os arpejadores tomarem o seu próprio rumo. Com data por anunciar, aguardamos ainda a edição em maxi-vinil, que incluirá três faixas orientadas para a pista.



Papillon – Banco [Discrepant, 27 de agosto]
É mais um lançamento da Discrepant e, desta vez, é um mergulho tropical nas origens culturais literárias da mais conhecida obra de Henri Charriere. Papillon, projeto do próprio dono da label, faz maravilhas pelo contributo à cultura dos field recordings, pela homenagem muito bem tematizada a outros campos artísticos como a literatura e, claro, pela competência musical do autor e de colaboradores como Mike Cooper, Cédric Stevens, David Daan e Yannick Dauby. “Banco” é um canto de cisne repleto de terror psicológico, natureza implacável e sumo tropical.



Kelly Lee Owens – Inner Song [Smalltown Supersound, 28 de agosto]
O sucessor do álbum homónimo de Kelly Lee Owens, de 2017, é uma autêntica sessão terapêutica que abre com uma envolvente cover de Weird Fishes / Arpeggi, dos Radiohead. Em “Inner Song”, o lado mais pop da britânica revela-se ainda mais, mas sem deixar de parte a inspiração clubbing que caracteriza esta ex-enfermeira. Ao longo do disco, a galesa exprime-se de modo sentimental, andando por uma dualidade musical – ora pop, ora de vertentes como techno – que parece dar nota ao contraste entre as noites mais eufóricas e as noites mais solitárias. E para essas últimas, a sós com nossa mente, este álbum é a banda-sonora ideal.



Silvestre – Uau Novo EP! [Meda Fury, 28 de agosto]
Viveu em Londres durante vários anos e é claramente influenciado pela eletrónica que se fez e faz no Reino Unido, mas Silvestre bebe de muitas mais fontes. “O peeps está bem disposto”, diz-nos em Todos Bem, onde, com a voz como um dos elementos centrais, revela que não consome cocaína nem MD – “só drinks”, adianta. Descomprometido e honesto, Silvestre abre portas para uma rave onde há um pouco de tudo, como breaks, grime e até mesmo sonoridades africanas, estas últimas estimuladas por duas referências da Príncipe: DJ Firmeza e Lilocox. Impossível ficar parado.



Will Penn – Stijl [Tight Chest Recs, 28 de agosto]
A Tight Chest proclama que pretende trazer música que desafie pistas e, a julgar por este seu primeiro lançamento, diríamos que as intenções não foram defraudadas. Na faixa que dá nome ao trabalho, o britânico Will Penn demonstra uma veia da velha guarda, onde o jungle, os breaks e o techno perfazem uma arma rave capaz não só de desafiar, como danificar umas quantas pistas. Em contrapartida, Try not to worry (nothing is easy) representa um amen break etéreo e amenizador, perfeito para o raiar matinal de um after que estará para vir.



Lorr No – Alergia [Favela Discos, 31 de agosto]
Parece que os sintetizadores não fazem só sons, também definem sentimentos. Lorr No faz desta peça-chave um dicionário e traz a nostalgia descrita em melodias estelares, num labirinto que passeia pelo ambient e o new age. Voltando a brilhar pela Favela Discos, agora à luz de outra identidade, Nuno Loureiro imerge numa dimensão distinta que tempera com “riffs nostálgicos que têm tanto de conforto como de ansiedade”, como conta. A sinuosidade nasce agridoce entre “jogos melódicos de tonalidades abertas” e “escalas contentes feitas melancólicas quando calha”. Numa odisseia emocional (des)construída através de correntes elétricas, a chave de ouro reluz e é Lorr No quem a tem para fechar o mês de agosto em grande.

Textos por Carina Fernandes, Daniel Duque, David Rodrigues, João Freitas e Rui Castro

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