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Melhores lançamentos de junho

7 Julho, 2019 - 16:33

Daniel Duque, Francisca Urbano, Gonçalo Pinto e Rui Castro falam sobre os 15 lançamentos que os marcaram ao longo do mês de junho.

Conferência Inferno – Bazar Esotérico [Coletivo FARRA, 3 de junho]
A dupla Conferência Inferno e o seu Bazar Esotérico são uma lufada de ar fresco para a música que tem sido feita em solo nacional. Em primeiro lugar, isto deve-se ao facto de as faixas serem cantadas em português; depois, o tipo de sonoridades que se escuta dos sintetizadores ou teclados, que recaem sobre categorias como new wave, não têm sido assim tão comuns na música portuguesa. Em Antes, o duo canta que “nada é como era antes” – afirmação que é tão certeira que nos deixa nostálgicos; ao mesmo tempo, no entanto, deixa-nos eufóricos para aquilo que o futuro dos Conferência Inferno reserva.



Gene On Earth – Local Fuzz [Limousine Dream, 4 de junho]
Ora cá vai um álbum! Não foi bem assim, mas o lançamento do álbum de estreia de Gene on Earth surgiu sem aviso prévio e apanhou toda a gente de surpresa. Mas parece que a estratégia resultou, dado o vazamento de prateleiras que se tem verificado. No entanto, não foi só pelo fator surpresa que o sucesso foi alcançado. Local Fuzz, lançado pela Limousine Dreams de Gene, é um álbum diverso e bem representativo de todo o house descomprometido que o artista residente em Berlim gosta de explorar. Marvin’s Garden, Now 2045, Starter Pack e Bionic Beats são os nossos destaques deste house gourmet, mas inclusivo.



Joton – Extreme Measures EP [Raw Raw Records, 6 de junho]
É pela editora ucraniana Raw Raw Records que sai o mais recente trabalho do dj e produtor espanhol Joton. Extreme Measures é um EP de quatro faixas originais – verdadeiros “techno bangers”, nas palavras do artista – que prometem fazer estragos nas pistas de dança. Antes deste trabalho, Joton lançou o EP Zeroreux em abril do ano passado, e participou com uma faixa na compilação da editora portuguesa INNSIGNN, 1 Year VA. Mas este EP parece ser o seu maior destaque em 2019.


Gareth Oxby Pre. 4th Planet Side Steppers [Bosconi Records, 11 de junho]
Em Warning, o veterano Gareth Oxby resgata um dos seus pseudónimos mais famosos, 4th Planet Side Steppers, para celebrar o som primordial do UK no qual contribuiu nos anos 90. Anti-Matter é exemplo dessa celebração, um tech house outrora lançado pela sua editora Alien Funk Movement em 1995 e que volta a ser editado 24 anos depois. Em Phaeton, o londrino explora o intelligent electro, de forma super funky, com uma progressão tal que os 9 minutos passam num ápice. A Bosconi Records refere que os bleeps alienígenas de Warning nos transportam para um estado pacífico de transe, numa dimensão hipnótica e de labirinto. Depois de lá sairmos, só podemos estar de acordo.


2Jack4U – Add To Cart [Extended Records, 12 de junho]
Acid Mary (Rubina) e Jack Drop (André) são os responsáveis por este Add To Cart, EP que marca também o regresso da Extended Records aos lançamentos – nos últimos tempos, a editora portuguesa tem lançado maioritariamente através do selo Discos Extendes. Este trabalho materializa-se numa ode ao lado mais acid da eletrónica, conjugado com a mestria da dupla 2Jack4U para manipular e construir música através de máquinas como a TB-303, TR-909 ou, entre outras, SH-101. Quatro faixas originais que conectam o acid ao mundo house e techno, ligando timbres, ritmos e melodias que fazem destacar o caractér e a clareza cintilante das viagens cósmicas que este duo proporciona.



Matrixxman & Physical Therapy – Threads [Nonplus, 14 de junho]
É difícil de perceber como é que, segundo os próprios, cinco anos de colaboração entre os dois não trouxeram resultados. E, claro, é especialmente difícil de perceber depois de ouvir este Threads, trabalho com o qual os dois produtores norte-americanos se sentiram suficientemente satisfeitos para mostrar ao público. Editado na Nonplus Records de Boddika, este EP é uma homenagem à série homónima da BBC, cuja a história se centra essencialmente num mundo distópico, que foi para o ar em 1984 – curioso ano, diga-se. Composto por cinco faixas, uma delas de música ambient, Threads chega a ser agoniante, num bom sentido, dada as diferentes abordagens e influências que se escutam. Chega a ser inexplicável.



Sinistarr – Everything on time EP [Defrostatica Records, 14 de junho]
Fãs da vertente deep do drum’n’bass e da bass music em geral, se não ouviram KNS 2019, andam a dormir. A faixa já havia sido lançada em 2009, mas esta nova edição tornou-a bem mais mortífera. Começa em halftime, progride para drum’n’bass e termina no segundo drop em jungle caótico. Outra faixa imperdível deste EP é Torpor, um registo totalmente diferente, num footwork sem o vocal típico do género e com um bass oscilante que merece ser ouvido num sistema de som digno de sentir a plenitude da sua força. Este Everything On Time EP é uma coleção de músicas que têm sido escritas ao longo dos últimos 10 anos, e são bem representativas do alargado espetro de ação pelo qual o produtor americano Sinistarr é conhecido.



Cassius – Dreems [Because Music, 21 de junho]
Dois dias depois do falecimento de Philippe Zdar, metade dos Cassius e dos influentes Motorbass, estreou o último álbum da famosa dupla francesa, Dreems. Talvez seja também por isso que este longa-duração faz derreter o coração como poucos lançamentos em junho, num trabalho que conta com a participação de nomes como Owlle, Mike D ou John Gourley dos Portugal. The Man. A música house é base para este disco, onde se ouve ainda o ‘french touch’ do qual Zdar é pioneiro, mas há mais elementos a ele associados, como pormenores pop ou disco. Dreems é bastante equilibrado e faz-nos viajar sem olhar para trás durante 50 minutos, tornando-se em mais uma excelente peça do brilhante legado de Zdar.



Moodymann – Sinner [KDJ, 21 de junho]
Moodymann não se guia por padrões, e não estamos apenas a falar da música que edita. Antes de este Sinner chegar aos ouvidos do mundo e da imprensa, já Kenny Dixon Jr. havia vendido algumas cópias em barbecues na sua terra natal, a mítica cidade de Detroit. Disponível em formato físico e digital, este novo trabalho vê Moodymann a aplicar, mais uma vez, elementos soul ou funk a música house, música que, em poucas palavras, serve também para dançar. Mas mais do que isso, é música para ouvir de olhos fechados. Mal podemos esperar pelas atuações no festival Elétrico, no Porto, e no LISB-ON, em Lisboa.



Photonz – Angel Heart EP [naive, 21 de junho]
Photonz (tcp DJ Senior Vasquez) é um meticuloso produtor de música eletrónica. Porquê, perguntam? Para constatar isso, basta ouvir Angel Heart EP, o fantástico trabalho que Marco Rodrigues lançou na naive, editora de Violet. As influências sónicas de jungle, electro, breaks ou techno estão bem presentes, mas o destaque vai para a ferocidade dos ritmos e para as composições das quatro músicas originais deste EP, como é caso de Emerald City, faixa que conta com um remix por parte da produtora e dj dinamarquesa Almaty.



Emauz – Through [Remember 430, 21 de junho]
A artista portuguesa está de volta às produções com Through, o seu LP de estreia e o primeiro a ser lançado pela editora francesa Remember 430. É a viver entre Lisboa e Fukuoka, no Japão, que a dj e produtora lança este álbum, uma viagem por sonoridades que andam entre o techno, electro e ambient ao longo das sete faixas que compõem o disco (dez faixas na versão digital).



Forest Drive West – They Live [Midgar, 24 de junho]
Tal como no seu álbum Apparitions, no qual aplica influência de música bass ao seu lado mais techno, Forest Drive West volta a fazer-nos viajar com incertezas neste They Live. Ao longo de quatro faixas, o britânico leva-nos por entre sonoridades tribais, breakbeats ou downtempo, tendo sempre o techno como premissa. No filme They Live de John Carpenter, a visão, mais precisamente através de óculos, tem um papel essencial no desenrolar da história; neste caso, um auxílio à audição, como uns bons auscultadores ou um sistema de som apropriado, torna-se também imprescindível para apreciar todos os detalhes ao máximo.



Paulo Vicente – Nepaulo EP [combustão lenta, 28 de junho]
Uma viagem ao Nepal em 2018 foi o ponto de partida de Paulo Vicente para lançar Nepaulo, EP editado pela combustão lenta records. O trabalho é uma espécie de diário de bordo dessa jornada, captado por um gravador DR-1 da Tascam e um iPad, e relata essa experiência, invocando a espiritualidade e imaginação das sonoridades que recolheu. Através do Ableton Live e com mão de Vítor Rua, Paulo reuniu as gravações feitas a partir de diferentes ambientes e fontes sonoras como sinos, ventos, veículos, instrumentos tradicionais budistas, entre muitos outros, com o objetivo de dar a conhecer os sons que caracterizam a identidade do Nepal. O disco certo para alimentar a imaginação.



Vários Artistas – Rave Tuga Vol. 4 [Paraíso, 28 de junho]
O quarto e último volume da compilação Rave Tuga, sub-label da editora Paraíso, conta com doze faixas e com a participação de artistas de diferentes gerações. Roundhouse Kick, Temudo, A. Paul, José Acid, Ketia e Wla Garcia são alguns dos nomes que contribuíram com uma faixa para a compilação. Para além de revisitar o que se faz em Portugal, a série Rave Tuga tem como objetivo “usar a música como veículo para lutar contra a discriminação e o preconceito” – as receitas deste VA revertem a favor da Casa Qui, uma associação de solidariedade social especializada nas questões da igualdade de género, orientação sexual e identidade ou expressão de género. E além de ser veículo para uma causa, é veículo para conhecer o que de melhor se faz no país.



Outer Heaven – The Last Men EP [UVB-76 Music, 28 de junho]
Depois de Pathos EP, lançado em 2017, Outer Heaven e a UVB-76 Music voltam a convergir as suas sonoridades tipicamente cavernosas em The Last Men EP. Este é um trabalho de som maioritariamente minimal, de ambiente e envolvência sombrios, em que cada elemento adicionado acrescenta tensão e a energia é absorvida por entre paletes rítmicas distintas. É o caso do trabalho percussivo atípico de Trapline, um modern jungle de batida tão diferente quanto viciante. Porém a surpresa veio de Blemish, um tema downtempo/trip-hop bem diferente do que estamos habituados do produtor inglês, mas cuja a atmosfera absolutamente sinistra e kick pujante transportou este trabalho diretamente para as nossas escolhas.

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