AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Artigo

Tertúlia: o que aprendemos ao longo de três conversas

30 Abril, 2020 - 16:53

Há duas semanas, estivemos a debater o impacto do novo coronavírus para a nossa cena eletrónica com diferentes convidados. Hoje, fazemos um apanhado dessa tertúlia.

A atual pandemia que atravessamos abalou por completo o país e, claro, a música, as artes, a noite ou os festivais não são exceção. As consequências são algo imprevisíveis, mas sabemos desde já que a economia nacional e muitos dos seus setores vão (e estão a) sofrer com toda a situação provocada pelo novo coronavírus. Os clubes e os espetáculos pararam há mais de um mês – artistas, técnicos, agentes e tantos outros veem-se, naturalmente, ameaçados. Por isso, há duas semanas, organizámos uma pequena tertúlia para tentar responder a algumas perguntas e para perceber melhor aquilo que alguns agentes culturais estão desde já a pensar, como podes recordar aqui.

Num artigo publicado pela Associação Portuguesa de Festivais de Música, Beatriz Alves refere como as repercussões desta situação, no caso dos festivais, podem fazer com que exista “uma seleção natural dos players desta área e isso implicará muito tempo para se recuperar a curva de crescimento que o país estava a ter na área dos festivais desde 2012”. Afinal, “os festivais cancelados este ano não conseguirão ter receita nem recuperar o investimento já efetuado para aplicar no ano seguinte” e, aqui, toca-se apenas no investimento das organizações. O que dizer dos empregos que se geram, incluindo até mesmo “equipas de som, luz, merchandising, street food ou até as marcas que se ativam nos festivais”? Ou da importância dos festivais para a economia, como é caso do Boom Festival, entretanto já reagendado para 2021, que consegue ter um impacto de 55,3 milhões de euros?

O primeiro-ministro e o Presidente da República receberam representantes de festivais de música e da Associação de Promotores de Espectáculos, Festivais e Eventos (APEFE) durante os últimos tempos, mas fica a ideia que, de certa forma, o mundo da noite e do clubbing mantém-se marginalizado – sem querer discriminar outros trabalhadores da Cultura, claro. Ainda recentemente, José Gouveia, da Associação de Discotecas de Lisboa, disse ao Diário de Notícias que “não é expectável que os bares e as discotecas estejam nas listas de negócios que vão reabrir em breve” e que “será, muito provavelmente, das últimas áreas onde será reposta a normalidade”, acrescentando ainda que “quem quiser continuar tem de se reinventar. Teremos de ser criativos, de pensarmos de maneira diferente. Temos que nos adaptar a esta nova realidade.”

Um grande problema, no entanto, é que há clubes grandes e outros mais pequenos. Artistas com cachets elevados, outros com pequenos. Nem todos vão sobreviver se não existirem apoios de diferentes frentes. E aí, a duração desta situação pode ter um forte impacto – Jorge Caiado, por exemplo, mencionou como “estamos em contrarrelógio. Quanto mais tempo demorarem as restrições a serem levantadas, mais soldados vão cair, mais artistas vão ter de deixar de ser artistas, mais clubes vão fechar”. Filipe Galante (também conhecido por Pixel82, do Plano B), partilha da mesma opinião, dando ainda nota de uma possível ameaça para a indústria: “tudo isto vai depender, em primeiro lugar, do tempo. Se falarmos em meio ano ou um ano, a indústria deixa praticamente de existir”.

Inês Coutinho (Violet, da Rádio Quântica) referiu numa das conversas da nossa Tertúlia que “esta situação afeta toda a gente (…) mas também acentua as desigualdades que já existiam”. Jonathan Tavares, do Pérola Negra, falou sobre “o grau de fragilidade que existe neste setor, que, é evidente, não é só no setor da música eletrónica, mas da música em geral ou da cultura em geral” e sobre como, “neste momento, estamos assolados porque como um teatro ou como uma casa de espetáculos e concertos está fechada por não os conseguir realizar, nós também estamos na mesma situação, mas como não há este reconhecimento da componente artística e da sua validade [por parte do Ministério da Cultura], muito provavelmente a necessidade de uma solução mais emergente é colocada como quarta ou quinta necessidade”.

Gonçalo Neto (Terzi) concorda: “em Portugal, sempre estivemos um bocado debilitados em todo o espectro da cultura”. Mas dentro das possibilidades de cada um de nós – promotores, clubes, até imprensa ou público – uma das abordagens para o período pós-covid-19 pode e deve passar por uma maior aposta nos portugueses, algo que, segundo Terzi, “já deveria ser assim há muito tempo” – um ponto que vê como positivo pois “é uma boa altura para reestruturar o mercado para ser mais focado em artistas nacionais. O público vai ter uma sensibilidade maior para isso”. Muitos dos convidados das nossas conversas sentem exatamente o mesmo e, além disso, referem como este momento poderá servir para dar força a uma necessária reestruturação do panorama nacional – Gustavo Pereira, diretor do Neopop, por exemplo, mencionou que “estávamos a ir a uma velocidade de cruzeiro, a passar para a velocidade da luz. Estávamos a precisar de abrandar.”

“A normalidade é nós consumirmos produtos internacionais, com uma pegada carbónica tremenda, que são os DJs internacionais que vêm ganhar muitas vezes mais de 50/60% daquilo que se fatura num evento. Eu acho que nós temos de pensar se realmente queremos voltar a essa normalidade. [Nas outras conversas] falaram, e muito bem, que deverá haver uma aposta muito grande nos DJs nacionais, até porque as viagens vão estar limitadas, com certeza, e eu acho que isto é uma oportunidade de ouro para fazer um step back e para redefinirmos aquilo que é a cultura clubbing – se é um show business, ou se é algo mais próximo da arte”, comentou Vasco Valente, membro da equipa da RDZ e do clube portuense Indústria.

Voltando ao papel do Estado e das instituições competentes, como abordado por Jonathan Tavares, as incertezas são muitas neste país que, segundo Jorge Caiado, “sempre teve dependência dos nomes grandes”. Luís Baptista (Nox), da Fuse Records, questionou o papel dessas entidades: “quando tivermos autorização para voltar, no caso, por exemplo, de algumas instituições como SPA, IGAC, PassMúsica, será que a postura dessas entidades vai ser a mesma? Será que vai haver um apoio? Será que vai haver um acompanhamento? Quem é que fará essa ponte entre os promotores e os clubes e a parte do governo, seja a nível regional ou nacional?”. Vasco Valente pensa que “estamos atrasados em relação a muitos países na Europa e não é só na sociedade em geral, é também no clubbing” – “eu acho que os nossos decisores – as pessoas em quem votamos – não têm noção do que é a cultura clubbing. Isso passa por ser uma falha nossa, obviamente, mas também da sociedade.”

Como afirmou João Silva Pires (Ka§par), é preciso “reconhecer que há agentes culturais na cidade que trabalham diariamente e que estão sem apoio e sem qualquer tipo de contexto” neste período. E isso pode trazer consequências: se “cair um agente de promoção de uma cultura”, “esse vácuo é imediatamente tomado pelas coisas mais simples, mais mundanas que podem existir para consumir, e isso é preocupante quando não há apoio público”. Jonathan Tavares corroborou estas afirmações: “se de facto houver um corte do foro financeiro que impossibilite algumas estruturas de exercerem as suas funções, nós vamos ter também uma falta de oferta cultural. E esta oferta vai ser desigual, não vai ser diversificada, pode provocar uma diminuição de confiança do público em querer vir ao nosso clube e um retrocesso cultural.”

Em Portugal, a cultura eletrónica não é vista como uma arte e é por isso que, hoje, “temos de estar aqui uns com os outros, não pode haver rivalidades e competitividade. Nunca levou a lado nenhum, muito menos agora”, como expressou Filipe Galante. Se há uma lacuna no papel do Estado, então deve haver uma maior união entre a comunidade – afinal, “ver um futuro é, no fundo, construí-lo”, disse Violet, que acredita que “devemos pensar em soluções que assentem em colaboração entre as scenes”, sendo necessário “um foco mais vocacional e mais construtivo” no panorama. É, inevitavelmente, necessária uma união entre as diferentes frentes – “um cenário” que, segundo Luís Baptista, é “um bocadinho utópico”, mas no qual não deixa de acreditar.

De acordo com Vasco Valente, “cabe-nos a nós [agentes culturais] pensar no que fazer a seguir”, e Jonathan Tavares quer acreditar que “as pessoas estão em casa a refletir sobre as coisas e a fazer um balanço” – mas não pode haver apenas uma resposta “nossa”, deve haver também uma resposta “municipal e nacional para que seja assegurado que nós sobrevivamos a este processo todo”. E claro, é de reiterar a importância de uma união para a necessária restruturação – “as pessoas que se reveem nos seus esforços, nas suas caminhadas em paralelo, imaginam que podem contar umas com as outras numa certa recuperação”, refletiu Ka§par.

Ao longo de três dias, nas três conversas percebemos, entre outros tópicos, que esta crise pode ser fatal para muitos empregos e para a indústria como a conhecemos, que é preciso apoiar o nacional mais do que nunca, que é necessária uma reestruturação, mas que, também, não podemos adivinhar o futuro. Contudo, levantaram-se novas questões: quais os passos necessários para a referida união da comunidade? Como iremos efetivamente reestruturar o panorama? Que papel terá o Estado e outras entidades depois da pandemia?

Qualquer que sejam as respostas ou o futuro, fazemos das palavras de um dos moderadores desta Tertúlia, Rui Estêvão, as nossas: “sabemos que vamos sair mais fortes. A nossa eletrónica vai ficar melhor, os nossos promotores, clubes e DJs vão ficar melhores depois disto.”

Até lá, continuemos a pensar naquilo que cada um de nós pode fazer para ajudar neste processo. Mais tarde, voltaremos a dançar juntos sem moderação.

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