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Os álbuns nacionais de que mais gostámos em 2020

15 Janeiro, 2021 - 14:10

Para rematar o nosso caderno de recordações do ano passado: os álbuns nacionais.

Antes de virarmos a nossa atenção exclusivamente para 2021, e depois de abordarmos compilações, lançamentos internacionais e EPs nacionais, chegou a hora de falarmos sobre os álbuns feitos em solo nacional de que mais gostámos no ano transato.

Mais uma vez, é importante referir que usamos o verbo “gostar” propositadamente dado que a nossa seleção passa pelos discos que mais nos viciaram ao longo do ano. É também por isso que, depois de um 2020 atribulado, há aqui muita música meditativa e introspetiva. Há álbuns de dança, claro, mas talvez houvesse mais se o vírus não nos tivesse tirado as festas nos clubes.

De Anrimeal a ZZY, a passar por nomes como Blanc Motif, Joana Guerra, João Pais Filipe, Nídia ou RIVAthewizard, estes foram os álbuns que mais nos marcaram em 2020, com nota no final da peça para outros tantos discos a não perder:

Anrimeal – Could Divine [Demo Records / Crossness Records]

Um álbum de estreia produzido e lançado na intimidade do seu quarto, “Could Divine”, de Ana Rita Melo Alves, mistura elementos de folk, amostragem sónica, poesia, laivos de erudição musical e outros segredos de fada do ofício numa autêntica poção musical. O cuidado estético que une estes vários elementos espelham uma alma onde a realidade é uma fábula, ou vice-versa – é esta a característica mais intensa de “Could Divine”.

Blanc Motif – Maze [1980]

Os portuenses Blanc Motif já pulverizavam a sua música com toques de techno, mas pareciam estar especialmente viradas para universos de ambient e drone. Ainda assim, no seu primeiro álbum, o duo de André Miranda e Rodrigo Ferreira tem o techno mais atmosférico, mental e profundo como certeza, sem deixar de levar a granularidade do seu lado mais ambient até este labirinto. Dizer que este é um álbum repleto de textura talvez ajude a descrevê-lo, mas chamá-lo de viciante é bem mais certeiro.

David Bruno – Raiashopping

Num retorno às suas raízes raianas, o principal iconoclasta da foleirice portuguesa traz mais uma bonita homenagem à portugalidade. Acompanhado, como nos dois lançamentos anteriores em nome próprio, pela viciante guitarra de Marco Duarte, um dos mentores do Conjunto Corona traz-nos “Raiashopping”: poético, romântico, nostálgico e, acima de tudo, orgulhosamente foleiro.

Drumming GP, Joana Gama e Luís Fernandes – Textures & Lines [Holuzam]

Quatro composições, cerca de 49 minutos, num álbum fruto de uma colaboração que já se havia encontrado em palco, em 2019. Não é a primeira vez que ouvimos o piano de Joana Gama ao lado dos sintetizadores de Luís Fernandes, mas é a primeira vez que temos oportunidade de os ouvir ao lado do Drumming Grupo de Percussão, bem no conforto dos nossos lares. Apelidar este “Textures & Lines” de obra-prima talvez seja um pouco ousado, mas a verdade é que é um dos mais belos trabalhos portugueses dos últimos tempos.

Fresko – Is It [HAYES]

“Is It” é o primeiro álbum de Francisco Barahona e foi editado pela portuguesa Hayes. Este lançamento é uma experiência techno repleta de texturas e irregularidades nas frequências, com uma pitada de psicadelia que resulta numa “experiência sensorial inesperada”. Em 2020, Fresko participou em compilações da Bomphcast ou até da ELBEREC, mas, depois deste álbum, a pergunta é só uma: para quando o próximo trabalho?

funcionário – Shichishito [Turva]

funcionário marcou 2020 com a dissolução da linha que separa a instrumentalização do sampling. “Shichishito”, álbum homónimo da espada japonesa de sete ramos, ilustra a infinidade de caminhos e vivências que nos compõem e dão origem à plenitude do ‘eu’. Traçando cada melodia como se nela contivesse a vida – ou parte dela – Pedro Tavares mostra a serenidade em forma sónica num embalo transcendental. E fá-lo como quem volta a reunir todos os nossos pedaços, outrora dispersos, para nos lembrar de que somos inteiros.

George Silver – Santo André [Linha Amarela Produções]

É por obra de George Silver e com selo da Linha Amarela – Produções que nos vem parar aos ouvidos um dos grandes leques de aromas musicais de 2020. Estreia em LP do artista, “Santo André” leva-nos numa viagem pela mente e alma do alter-ego de André Neves, numa alucinante fusão de batucadas, excertos de Roland Barthes, pianadas clássicas com arranjos de trazer lágrimas aos olhos (ouvir a quarta faixa, Vira (nas nuvens), para eventuais esclarecimentos) e muita melodia sintetizada. Se calhar o Santo Graal está mesmo enterrado (ou desterrado) no Barreiro.

Império Pacífico – Exílio [Variz]

O primeiro LP dos Império Pacífico é prova da abordagem irreverente (e aliciante) do duo formado por Luan Bellussi (trash CAN) e Pedro Tavares (funcionário). “Exílio” abre com ritmos e paisagens tropicais que marcam o caminho de uma aventura envolvente, marcada por diferentes sonoridades, de pop a dança leftfield, e desencadeada por elementos como sintetizadores, samples ou a voz de Maria Reis em dois dos temas. A não perder.

Joana Guerra – Chão Vermelho [Miasmah]

Repleto de voz e violoncelo mas com espaço para aventuras pouco convencionais na guitarra elétrica, nos teclados e na guitarra portuguesa, o “Chão Vermelho” de Joana Guerra é uma exímia amostra de música sem fronteiras. É também a prova de que, quando se dá o devido espaço para vários músicos e instrumentos coexistirem, boas coisas acontecem.

João Pais Filipe – Sun Oddly Quiet [Lovers & Lollypops / Holuzam]

Num ano em que lançou também discos colaborativos imperdíveis, ao lado de nomes como Burnt Friedman, Julius Gabriel ou Rafael Toral, o percussionista português trouxe a solo, mais uma vez, um mantra sonoro que induz o ouvinte a um estado de meditação que não está ao alcance de qualquer um, tanto que nos eleva até uma incomparável experiência metafísica através de ritmos e atmosferas hipnotizantes e transcendentes.

Jorge Caiado – Time & Space [Groovement]

Através de uma fusão que tem tanto de jazz como de house clássico, minimalismo ou futurismo, Jorge Caiado lançou o seu primeiro álbum logo no mês de janeiro. Neste disco há uma componente orgânica assinada por dois músicos, Paul Cut e Theo Thornton, que serve como uma cereja no topo de um bolo que, além de sério e luxoso, é viciante.

Lina, Raul Refree – Lina_Raül Refree [Glitterbeat Records]

Um novo começo: foi isso que Lina e Raül Refree quiseram oferecer ao fado português, num ano pautado pelo centenário de Amália Rodrigues. Lina, cantora portuguesa de longa data, mantém-se fiel à essência da fadista e conjura, em cada tema, a imortalidade do seu legado. Raül, conceituado multi-instrumentista espanhol, disse adeus às guitarras para receber de braços abertos uma metamorfose traçada a piano e sintetizadores. Neste álbum, o fado despe-se das amarras da tradição e renasce, concentrando em si a espectralidade do passado e a veemência do futuro. Imperdível.

Luis Pestana – Rosa Pano [Orange Milk Records]

Fosse esta uma lista de 10 discos, este estava lá. Fosse de 5, idem aspas. O primeiro álbum a solo de Luis Pestana foi desenhado para ser ouvido do início ao fim sem interrupções. E ninguém se vai arrepender de o fazer. Nesta “tentativa de criar música eletrónica experimental menos distante”, “mais próxima de texturas e sensações humanas”, o ex-guitarrista dos LÖBO faz muito mais do que beber de influências como ambient – aqui, conta uma história arrepiante (e bem única) que bebe do folcore português (ouça-se a voz de Vitorino em Ao Romper da Bela Aurora) para fazer cair o pano do nosso âmago.

Misfit Trauma Queen – Violent Blue [Regulator Records]

Uma bela surpresa do ano passado foi Misfit Trauma Queen e o seu álbum “Violent Blue”. Pelo menos em contexto nacional, David Taylor faz música singular que reflete a exploração do baterista e produtor da Figueira da Foz, fundindo géneros e inspirações que tanto passam por David Lynch como por raves de pouca luz onde se ouve EBM ou techno. Para ouvir e repetir quantas vezes forem necessárias.

Nídia – Não Fales Nela Que A Mentes [Príncipe]

Nídia é um nome para manter debaixo de olho e ouvir sempre que possível. No sucessor de “Nídia É Má Nídia É Fudida”, de 2017, a DJ e produtora parece mais emocional, com melodias a acompanharem ritmos numa fórmula que parece não seguir catalogações impostas de antemão, mas antes uma aparente vontade de expressão aberta e sem limitações. Ao longo de aproximadamente 30 minutos, que passam rapidamente a 60 depois da primeira escuta, “Não Fales Nela Que A Mentes” corre pelos ouvidos com uma abordagem e fluidez apaixonantes.

:PAPERCUTZ – King Ruiner [Sounds Of A Playground]

Se é para ouvir eletrónica com traços pop, então deixem-nos consumir “King Ruiner” vezes sem conta. Por entre gravações feitas em cidades como Porto ou Tóquio, traços cinemáticos ou até doces vozes de vocalistas convidadas, o álbum que o projeto de Bruno Miguel editou em 2020 é uma viagem intimista e tão cortante como papel que nos envolve do primeiro ao último tema. Se precisarem de mais, passem pela versão deluxe deste disco, que inclui sérios remixes de nomes como FARWARMTH, Scúru Fitchádu e Ondness.

RIVAthewizard – Loucura Censura [Chinfrim Discos]

RIVAthewizard desdobra-se em sintetizadores para dar vida à envolvente história de eletrónica pop “Loucura Censura”. Enriquecido por letras que tocam em diferentes e importantes temas, este álbum de estreia é fruto de várias influências do músico portuense – french touch, música de intervenção portuguesa, reggaeton, rave – e foi uma das obras mais interessantes de 2020. O álbum agarra do início ao fim, com transições meditadas, como na passagem entre a parte dois e três de Loucura Censura. Um disco espantoso e imperdível.

Serpente – Fé/Vazio [Ecstatic]

Sucessor do álbum de 2019 “Parada”, “Fé/Vazio” é um interlaçar de elementos e sound design que parece recolher provas de géneros como breakbeat, jungle, IDM ou techno, mas com um cunho muito próprio que acaba por fugir de categorizações fáceis. Com um título que remete para o split “Faith/Void”, lançado em 1982 pela Discord, este regresso à Ecstatic é uma psicadelia mental e rítmica assinada por Bruno Silva, também conhecido por Ondness noutras andanças, que se liga pela mesma cor, criando uma organização que não se intimida pela algazarra que se escuta em temas como Nível de Fumo.

Stereoboy – Kung Fu [O Cão da Garagem]

De uma certa dualidade nasce a essência de Stereoboy e das paisagens sónicas que tem vindo a construir. Depois da serenidade e nostalgia de “OPO”, as máquinas de Luís Salgado, ao lado dos percussionistas João Pimenta e José Machurro, levam-nos numa travessia pendular entre a contemplação e a euforia. Na atmosfera meditativa entra um corpo rítmico com uma urgência contagiante, ilustrada por “drones tanto imersivos e contemplativos como agressivos e ruidosos”. São quatro faixas que adormecem e despertam, ao som das quais se exorciza e absorve, numa fusão livre e a não perder.

Três Tristes Tigres – Mínima Luz

22 anos depois de “Comum”, os Três Tristes Tigres regressaram com o álbum “Mínima Luz”, disco que conta com a participação de nomes como Fred Ferreira e Angélica Salvi em alguns temas. A voz de Ana Deus e as letras de Regina Guimarães juntam-se às guitarras ou sintetizadores analógicos e modulares de Alexandre Soares para escrever uma história imensamente encantadora, que se destaca como uma das mais bonitas deste ano. Ao longo do álbum experiencia-se pop, rock e não só, tudo envolvido numa obra de excelência.

Vitor Joaquim – The Construction of Time

Depois de “Nothingness” (2019), Vitor Joaquim estreou o cair das folhas de outono com “The Construction of Time”. Pintado a tons experimentais, este “imaginário sónico” canta uma narrativa despertada por vários elementos, como excertos de rádio e televisão capturados durante as invasões ao Iraque e muito mais. A desdobrar a perceção imersa nas dimensões do “tempo, do fluxo e da interioridade”, Vitor Joaquim abre espaço para um locus amoenus que sussurra. E mais do que sentirmos o tempo a voar ao ouvir “The Construction of Time”, este disco é um convite irrecusável para a transcendência.

ZZY – Disorder

O título do último álbum de José Veiga como ZZY parece uma antítese – “Disorder” tem ordem, pés e cabeça. A escolha do nome talvez se deva ao facto de o trabalho ser “mais sombrio, obscuro e misterioso”, desenrolando-se “ao redor de um universo mais íntimo e introspetivo”, segundo palavras de ZZY. Por aqui há uma reflexão muito própria vivida em paisagens ambient, experimentais, glitch e até dubstep. “Disorder” pode até ser o resultado de autorreflexão, mas o ouvinte fica também a refletir. E o quão bom é isso.

Mais álbuns nacionais a não perder:
Dust Devices – Interupt
FARWARMTH – Momentary Glow
Ghost Hunt – II
JP Coimbra – Vibra
Luar Domatrix – Nova Vida Passada
Lunnar Lhamas – Algo Ritmo
Prophetas – Maury Island Reverie
Ritz – Non Linear Thinking
Sampladélicos – Cavalo de Tróia
UNITEDSTATESOF – Selections 1

Por Carina Fernandes, Daniel Duque, David Rodrigues e João Freitas. Alguns dos textos aqui presentes são baseados ou replicados a partir dos nossos lançamentos mensais favoritos.

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