AUTOR

A Cabine

CATEGORIA
Podcast

N’A CABINE #034: KAKAF

2 Julho, 2021 - 12:48

Conhecemos KAKAF recentemente, mas temos certeza de que é um jovem para manter debaixo de olho. Ouçamo-lo.

Filho da fadista Rosa Maria e do músico Ildo Ferreira, Cláudio Alexandre cresceu rodeado de música no seio familiar. E a influência não chegou apenas dos pais: também os seus irmãos “foram uma grande influência na sua aventura na música”, como nos explica neste episódio de N’A CABINE.

Mas Cláudio Alexandre não começou essa aventura a tocar instrumentos, como acontece noutros casos. Na realidade, aos nove anos, o agora DJ e produtor KAKAF começou a dar os primeiros passos num bar gerido pelo seu irmão; mais tarde, aos 12, foi aluno de Zé Veneno, pela mesma altura em que começava a tocar uns discos no Clube da Praia, na Zambujeira do Mar.

Volvidos todos estes anos, tem uma residência mensal na Rádio Quântica e chamou a nossa atenção com “Pushing”, um EP de três faixas que lançou em maio pela Alphabet Street, label de Yen Sung e Photonz. Mas antes desse trabalho já haviam saído outros, como é caso de “Face it!”, editado no início deste ano. E fica a promessa: vem aí um novo projeto e “muita música nova”.

Por entre Recondite, St. Germain ou faixas do próprio, KAKAF assina aqui um episódio “ideal para uma tarde ou início de noite”.

Para quem não te conhece: quem é o Cláudio Alexandre e como é que ele chegou a KAKAF?
Bem… Cláudio Alexandre é o meu nome e KAKAF o meu nome artístico. Para explicar como chego a Kakaf voltamos uns anos atrás. 2013, Zambujeira do Mar, Clube da Praia.

Na urgência de anunciar o meu nome no cartaz e já com alguns nomes em mente, o meu irmão Tiago teve a ideia de dizer Cacaf. Porquê? Quando comecei a dizer a primeiras palavras as pessoas perguntavam-me o nome e eu respondia Cacá, ainda não conseguia dizer o meu nome Cláudio. Fui crescendo e as pessoas que me conhecem desde pequeno continuam a chamar-me assim.

Resumindo, o meu apelido é Ferreira portanto daí vem o “F”. Véspera de passagem de ano de 2013/14, foi aí a minha primeira aparição num cartaz com o nome Cacaf e, mais tarde, em 2019, decidi trocar os Cs pelos Ks porque acho esteticamente mais giro.

Sei que no teu lar há músicos e muita música. Podes falar um bocadinho sobre isso? E de que forma é que isto te influenciou a começares a tua própria aventura?
Cresci com a minha mãe, de seu nome artístico Rosa Maria, fadista a vida toda, correu o mundo a fazer aquilo que gostava e só isso me deixava surpreso, fazer uma coisa que gostas e viajares – duas coisas que adoro. Lembro-me de ir com 5 anos para a Adega Machado, mítica casa de Fados no Bairro Alto e ouvir a minha mãe e outras/os fadistas, ouvir as desgarradas de viola e guitarra, sentia-me acolhido ali, era um ambiente harmonioso. Fascinava-me a vida boémia, as pessoas vestidas a rigor, os lindos vestidos da minha mãe sempre com um xaile a cobri-la, sentia-me muito confortável naquele meio. Ficava muito atento quando cantavam porque antes de alguém cantar havia sempre aquele “shiu!” prolongado e a sala inteira calava-se e começava-se a cantar o fado.

Lembro-me que tanto em casa como nas longas viagens para o monte dos meus avós no Brejão, terra natal da minha mãe, a minha mãe passava talvez as três horas da viagem a cantar, até que aprendi também o meu primeiro fado “Cavalo Russo”.

Os meus irmãos Tiago e Filipe também foram uma grande influência na minha aventura na música, desde encontrar CDs de eletrónica lá por casa e tocá-los na aparelhagem, nas viagens sempre a ouvir sets de house ou techno, ouvir as peripécias das festas que eles iam…

Também desde pequeno que ouvia os CDs do meu pai Ildo Ferreira que cantava desde soul, a música africana a baladas de amor.

Cresci longe do meu pai mas sei que era um excelente músico que tocava piano, bateria, saxofone. Acho que estas duas referências foram as primeiras para ter a certeza que queria ter um trabalho relacionado com a música quando fosse adulto.

Consegues falar sobre o teu primeiro contacto com eletrónica? E com o DJing?
Primeiro contacto com música electrónica foi também na primeira década da minha vida, o meu irmão mais velho em 2004 mudou-se para a Zambujeira do Mar, onde abriu o seu primeiro bar “LX Caffe” e mais tarde geriu também na Zambujeira a discoteca “Clube da Praia”, foi aí que tive o primeiro contacto com música eletrónica.

Em 2006, com 9 anos, dei os primeiros passos no djing num bar/discoteca também gerida pelo meu irmão, a “Mercearia da Música”, e nessa altura já começava a vincar o meu gosto musical. Ouvia muito hip-hop e isso refletia-se depois nos CDJs, tocava Da Weasel, Boss Ac, Orishas, 50 Cent, Snoop Dogg, Usher, etc… o meu irmão tinha duas caixas cheias de CDs, tinha as compilações dos “NOW” e era basicamente isso que tocava na altura.

Em 2009, com 12 anos, quando fui viver para a Zambujeira, é que comecei a interessar-me por música eletrónica de dança, lembro-me que o DJ e meu professor de Djing Zé Veneno, natural de Coimbra, irmão dos meus irmãos mas que não é meu irmão de sangue, tinha e tem um conhecimento vasto de música e adaptava-se muito facilmente à necessidade da pista, sendo o Clube da Praia a única discoteca de uma terra pacata em que os meses mais fortes eram os três meses de verão. Tínhamos de nos de adaptar às circunstâncias porque apanhávamos todo o tipo de público. O Clube da Praia tinha um registo musical muito variado desde o underground ao comercial, da música ao vivo ao Karaoke, do reggae ao samba, do disco ao rock, havia uma programação muito variada. Haviam as noites “The 80’s” com a temática de música antiga, as “Cocktail Stereo” que eram caracterizadas pela panóplia de estilos de música, as “Do you feel the bass” composta pela eletrónica de dança, entre outras.

Contudo, quando o nome dele era anunciado no cartaz ou seja quando era ele mesmo, o Zé Veneno, a linha de música dele era guiada pelo house, deep house, soulfoul, electronica, funk, soul, disco, desde Frankie Knuckles, Kerri Chandler, Soul II Soul, Todd Terje, Lisa Stanfield, Chic, Moloko, New Order, Depeche Mode. Era a eletrónica de dança e foi com esta escola que fui evoluindo e desenvolvendo as minhas competências e aprimorando os meus gostos.

Quando comecei a tocar musica electrónica era tudo o que ouvia do Zé porque só tinha acesso à musica dele e foi aí que comecei a aprender a misturar, a acertar as batidas, compreender os tons das músicas ou as músicas que ficavam bem juntas.

Em conversas com os meus irmãos e com pesquisas minhas comecei a descobrir Plastikman (Richie Hawtin), Gaiser, Sven Vath, Rui Vargas, PinkBoy (NVNO), Yen Sung, Carl Craig, Black Coffe, Carl Cox, Jiggy, Underground Sound of Lisbon, Matias Aguayo, Nicolas Jaar, Dezperados, Dubfire, Ricardo Villalobbos, Butch, Jamie Jones, Jorge Caiado, KA§par, entre muitos outros, e é aqui que começo a definir o meu estilo e linha de Dj set.

E a produção, quando e como entra na tua vida?
A produção entra na minha vida quando com 15, 16 anos comprei um portátil com o dinheiro que fazia a trabalhar para o meu irmão, uns tempos depois o DJ Francisco Jacob ofereceu-me um teclado M- Audio Axiom 49 com pads e knobs e o meu irmão disponibilizou-me um sunround que usava no LX Caffe de 2004, montei-o no meu quarto, abri o Fl Studio e é ai que começo a fazer a minha música. Um setup um pouco arcaico mas que para mim já era espetacular. Lembro-me que na altura recusava ver tutoriais de como fazer House ou Techno porque não queria soar como ninguém e andei ainda uns bons tempos ainda a nadar na maionese porque parecia que nada do que eu fazia me soava bem.

Tens algumas influências que consigas definir?
Todo o meu trabalho é influenciado por tudo o que ouvi até hoje, sinto que cada vez menos a nível de produção tenho menos influência digamos direta porque não me foco numa label ou estilo em específico. Ao início seguia bastante a editora “Minus”, tentava fazer cenas mais minimais, hoje em dia não. Oiço as minhas produções e já vou buscar influências a vários sítios, por exemplo a Pushing, remete-me para Thyladomid, de The Voice, por exemplo a Faith remete-me para Audiowhores, de Sometimes. Do meu primeiro EP “Face it!”, um EP mais mental, mais “trippie” vou buscar referências a Plastikman – não as vou buscar quando estou a criar a música mas no final oiço e penso: “inconscientemente fui influenciado por isto”. Acontece-me com músicas que ouvi recentemente ou com músicas que ouvi há 10 anos.

Qual o balanço que fazes do mais recente “Pushing” e da oportunidade de o lançares na Alphabet Street?
Estou muito contente com o lançamento na Alphabet Street, foi o reconhecimento de uns bons anos de trabalho, agradeço do fundo do coração à Yen Sung e ao Photonz. Ser o 2º lançamento da editora senti que foi também um ponto de reconhecimento da parte dos 2 para comigo. Tenho tido um bom feedback da parte tanto do público como dos DJs , quero agradecer a todos os que ouviram, aos que compraram, e os que partilharam o EP. Vê-lo tocar no programa do Rui Vargas “Música com Pés e Cabeça” na Antena 3, no programa da Carista na “BBC Radio 1”, a Yen no podcast que gravou para a Resident Advisor, no Fabz a tocá-lo na Oxigénio, a Chima Hiro no Musicbox – tem sido uma sensação muito graticante! Obrigado a todos, mesmo!

O que podemos esperar de ti nos próximos tempos?
Não crio grandes expectativas em relação à musica, claro que tenho os meus objetivos mas devido ao Covid-19 apercebi-me que nem sempre temos o rumo das nossas vidas nas nossas mãos, quando o Covid apareceu ia para Londres tirar um curso de Mixagem e Masterização e os planos foram todos por água abaixo. Tenho sempre em mente uma máxima em relaçãoàá música que é “isto não é para se fazer, é para se ir fazendo” e levo essa máxima na música porque não vale a pena acelerar o processo, é continuar a trabalhar para todos os dias me superar e as oportunidades acabaram por surgir, mas futuramente é claro que podem esperar muita música nova e aproveito para dizer para quem não sabe que estou todos os meses na Rádio Quântica e podem-me ouvir por lá e é lá que faço o teste piloto das músicas que acabo por lançar.

O que é que preparaste para nós neste podcast?
Neste podcast, como em todos podcasts ou DJ sets, não faço um planeamento total daquilo que vou tocar. Claro que escolhi algumas músicas – por exemplo, a de abertura é um projecto meu que ainda não foi lançado, a que vem a seguir também e depois entro num registo entre o house e o techno, um bom mix para uma tarde ou início de noite.

Let’s dance! 🙂

Direitos de imagem reservados

relacionados

Podcast

1

  • Maria Luísa Guerreiro

    Reply
    3 Julho, 2021 - 15:19

    PARABÉNS, Cláudio.
    Conheço tua Mãe e conheci teu Pai em Londres.
    Continua, cá estarei para ver teu sucesso.
    M Luísa
    Beijao

Deixa um comentário






t

o

p