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20 álbuns nacionais de que gostámos em 2022

23 Janeiro, 2023 - 19:02

Última parte do nosso apanhado de 2022: os 20 álbuns nacionais que não paramos de ouvir (e 12 de bónus para conhecer ou voltar a ouvir).

É claro que estas listas são sempre injustas. São baseadas (maioritariamente) em gostos pessoais e naquilo que quem as faz ouviu. É óbvio que nos podem ter escapado obras incríveis e é por isso que não consideramos as nossas listas como “melhores do ano”. São discos de que gostámos por um motivo ou por outro.

Em parte, esperamos que estes artigos sirvam para conhecer ou recordar música. Neste caso, os álbuns nacionais de 2022, com uma seleção variada e para grande parte dos gostos. Boa viagem!

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Alexandre Soares – Ouvido Interno

Esqueçam as canções. Aqui, em “Ouvido Interno”, o músico portuense Alexandre Soares agarra nas habituais guitarras e adiciona à receita explorações em sintetizadores modulares para assinar 40 minutos de eletrónica experimental, introspetiva e viciante que, em dois dos temas, é feita ao lado de Krake. Fundador dos GNR e membro dos Três Tristes Tigres e da Associação Sonoscopia, Soares é mestre sónico e toda a sua experiência está em evidência num disco que não vais querer perder. DD

Augen – Inter/Flare [Móatún 7]

Cerca de seis meses após a estreia neste formato, Gabriel Mendes pôs cá fora “Inter/Flare”, no qual volta a mostrar o que se pode esperar da música do pseudónimo Augen. Também conhecido por Gabi von Dub na cabine, Mendes é um artista atento ao detalhe, como se pode ouvir em trabalhos passados ou em sets como este. Dedicado à memória da sua mãe, “Inter/Flare” é igualmente repleto de peculiaridades para ouvir com atenção. O tema introdutório, por exemplo, eleva-nos desde logo até um mundo próprio em que a ambiência circundante é acompanhada a certa altura por cordas que se vão soltando pelos recantos do nosso ser. Envolvente até mais não, é da melhor música ambient que se fez por cá em 2022. DD

Bandua – Bandua [Frente Bolivarista]

Bandua é o projeto apresentado este ano por Bernardo D’Addario (Tempura) e Edgar Valente, dupla que divulgou este primeiro disco em fevereiro. E ninguém ficou indiferente. Afinal, este é um álbum único, que junta o folclore português ao downtempo berlinense, poemas e técnicas da Beira Baixa à música folk. Uma receita a desafiar as noções de espaço e tempo que continuará nos nossos ouvidos por muito tempo. DD

Bezbog – Dazhbog [Favela Discos]

É música experimental singular e viciante com selo da Favela Discos, que este ano pôs também cá fora explorações tão interessantes quanto “Lexicon Hall”, de Dies Lexic. A dupla formada por David Machado e Dora Vieira regressou aos álbuns com este “Dazhbog” e, novamente com instrumentos de sopro ou recursos eletrónicos, imprimiu a peculiaridade drone e espiritual que se escuta. Qual vida numa masmorra, Bezbog faz música digna de perfilar um filme de David Lynch ou até de acompanhar os nossos pesadelos (ou sonhos?) mais obscuros. A não perder. DD

Fado Bicha – OCUPAÇÃO

“OCUPAÇÃO” é um dos discos mais bonitos que ouvimos em tempos recentes. Produzido inteiramente por Luís Clara Gomes (Moullinex) e com participações de nomes como Labaq ou Trypas Corassão, o álbum tem o fado (e o âmago deste, pois claro) como elemento primordial, mas é muito mais do que isso. “OCUPAÇÃO” é um cântico queer formativo e emotivo. Quem não chora com 1997? Quem não tem coração, talvez. E aqui há muito coração. DD

Inês Malheiro – Deusa Náusea [Lovers & Lollypops]

Uma das vozes mais importantes a surgir em tempos recentes na eletrónica portuguesa, Inês Malheiro recorre a isso mesmo na sua música: à voz. Claro que há mais do que isso (gravações, por exemplo), mas o processamento desse instrumento natural em múltiplas camadas é o que se espalha por nós em “Deusa Náusea”. Um álbum que parece livre de interpretações, há semiótica por todo os cantos e uma tela que se vai preenchendo para nosso júbilo – basta fechar os olhos e viajar. DD

Joana de Sá – Shatter [sirr-ecords]

Do minimalismo orgânico de Honeycomb ao desenrolar tempestuoso de Shatter, o álbum debutante de Joana de Sá fez das faixas que o compõem jangada e da sua aura musical uma maresia oscilante entre subtileza e ímpeto. Um forte testemunho ao poder terapêutico da escuta e da composição musical, “Shatter” leva-nos de mão dada por uma trajetória curativa muito própria que, de resto, converge com o propósito assumido pela sua autora de “escape a certas circunstâncias e disposições pessoais”. DR

Joana Gama e Luís Fernandes – There’s No Knowing [Holuzam]

Quinto fruto colaborativo da dupla de Joana Gama com Luís Fernandes, que já trabalham em conjunto há quase uma década, “There’s No Knowing” é uma incursão de ambos no “grande vazio” através do diálogo musical entre a pianista e as frequências do compositor eletrónico. Numa sintonia contemplativa e progressiva, vagueando descomprometidamente entre o meditativo e o angustiante, a dupla traz consigo uma aura de elegância e rigor no experimentalismo característica de uma maturação e aprendizagem musical tão conjunta como contínua. Ouvir o trabalho de ambos pode ser uma experiência comparável a assistir à escalada de uma montanha. Em “There’s No Knowing”, não há como saber se existe de facto um cume, mas há, isso sim, como senti-lo cada vez mais iminente. DR

Lake Haze – Henosis [Shall Not Fade]

Gonçalo Salgado, aliás Lake Haze, tem um dos outputs mais interessantes por entre os nomes nacionais. Constantemente a pôr excelentes discos cá fora, poderia perfeitamente perfilar nestas listas a cada ano. Olhe-se para “Sun Rising on Concrete Landscapes” (2021), por exemplo, ou para “Glitching Dreams”, que chegou a integrar o nosso apanhado de 2019. Aqui, em “Henosis”, o lado mais emotivo do electro (também há ambient e outras inspirações) continua bem presente, num álbum ideal para diferentes moods e momentos. Nota ainda para “Eterno Romance”, que Salgado lançou também no ano passado com o pseudónimo DJ Veneno666. DD

Rita Silva – The Inflationary Epoch [Colectivo Casa Amarela]

Resultado da consolidação artística de um processo criativo que passou pelos mais diversos patamares, da iniciação experimental de “Studies Vol. I” ao lado mais pop de re_encounters, “The Inflationary Epoch” é (até à data) o pico da maturação eletrónica de Rita Silva numa demanda insaciável pela continuidade do legado das mulheres pioneiras (e muitas vezes esquecidas) da música eletrónica. Um autêntico foguetão no panorama musical experimental de 2022 para nos levar daqui para outro lado. DR

SASHA THEFT – Amphibian Intermission [kaptcha]

Nem um “portátil velho e pesado” impediu Sasha Theft de produzir um dos discos mais interessantes do ano. Composto por sete faixas, “Amphibian Intermission” corre ao longo de cerca de 40 minutos e mostra-nos um mundo de rave emotiva sem muito par na produção nacional em 2022. É música que tanto dá para dançar como para sonhar (pelo menos em alguns temas, vá), inspirada em movimentos de eletrónica dos anos 90, da contemporaneidade e muito, muito mais. DD

Serpente – Dias da Aranha [Souk Records]

A incursão de Bruno Silva pelos campos mais experimentais da música traz sempre discos muito próprios e especiais. Em 2022, Silva fez chegar “Megadawn” e “Oeste A.D.”, assinados pelo pseudónimo Ondness, e este “Dias da Aranha”. Qualquer um deve ser escutado com atenção, mas, neste caso, o destaque vai para o disco de Serpente. Por aqui, ao longo de cerca de 40 minutos, entramos num convidativo ritual que, mais do que respirar o engenho de Silva, respira também o génio artístico de nomes tão pulsantes quanto Maxwell Sterling, Pedro Sousa ou Gabriel Ferrandini. Especialmente pela abordagem rítmica fora de série, este é um disco bem viciante para repetir vezes sem conta. DD

Silvestre – Sossegado [Padre Himalaya]

Silvestre não anda aqui para brincadeiras, por muito que algumas produções de outros discos tenham um tom humorístico. Silvestre é boss e este álbum de estreia mostra por que razão o é. Bem equilibrado, tanto quanto se espera de um formato destes, o DJ e produtor não se limita a entregar músicas enérgicas. Há por aqui faixas calmas (ambient, até) que estimulam ainda mais a energia quando se escutam momentos como Madrugada ou Começar de novo. Breaks, electro e muito mais, tudo assinado por um dos nomes portugueses que melhor domina estas sonoridades. DD

Solar Corona – Pace [Lovers & Lollypops]

Não há o saxofone de Julius Gabriel, mas há a impressão digital de Nuno Loureiro, também conhecido por Lorr No (ou Mada Treku, se recuarmos mais um bocado) quando falamos de música eletrónica. Loureiro não é estranho aos Solar Corona – fazia parte da formação Elektrische Maschine, por exemplo – mas é a primeira vez que um disco da banda é gravado ao seu lado. O resultado é uma visão dub (e não só), fruto de sintetizadores (também a cargo de Rodrigo Carvalho) e recursos eletrónicos que ajudam a imprimir uma nova singularidade ao psicadelismo tão único e destacável dos barcelenses. DD

Sopa de Pedra – Do Claro ao Breu [Lovers & Lollypops]

Sopa de Pedra é um dos grupos portugueses mais excitantes dos últimos anos. Quase cinco anos após “ao longe já se ouvia”, este grupo de 10 mulheres agarra em arte, como poemas de Eugénio de Andrade, para nos servir composições vocais que abraçam a tradição portuguesa com uma genialidade sem par. No Lado A está presente um lado “mais luminoso” e no B um mais “obscuro”, como é explicado nas notas oficiais, mas o melhor é mesmo passar por esta brilhante peça de Pedro João Santos para conhecer todo o misticismo de Sopa de Pedra ao pormenor. DD

Studio Bros – Different

Diretamente da Quinta do Mocho, a dupla Studio Bros volta a provar a riqueza musical que reside neste país. Há 15 anos nesta aventura pela música, Famifox e Nunex lançaram este primeiro álbum, “Different”, no qual mostram a sua própria abordagem – segundo os próprios, um “lado mais livre”. Se há mais de uma década se inspirou em vizinhos como DJ Nigga Fox e Firmeza, o duo é hoje um ato que trilha o seu próprio caminho, um caminho festivo e enérgico. Neste caso, esse caminho conta com o apoio de cerejas no topo das faixas, como é caso das participações de Táyra, Natália Paris, Lilocox ou Pierre Kwenders, e nós somos mais do que convidados a caminhar por lá. DD

Surma – alla [Omnichord Records]

O segundo trabalho de Surma surge depois de um longo período de pausa e re-estruturação da artista após um ainda mais longo período de consolidação artística no panorama musical nacional e internacional, com “Antwerpen”, aclamado disco de estreia que a propeliu de Leiria para o mundo. Radicalmente diferente do seu antecessor, “alla” representa uma das mais corajosas e genuinas guinadas expressivo-musicais que se ouviram por cá. Ao longo de dez faixas maioritariamente colaborativas (de Ana Deus a Selma Uamusse, de Cabrita a Ecstasya), Surma aproveita o ímpeto para nos mostrar uma expressividade sem olhar a eventuais restrições formais ou outros constrangimentos normalmente impostos pelo sucess o inegável do formato anteriormente assumido. Uma ode à amizade, ao eu com o outro e, acima de tudo, à liberdade criativa. DR

Trypas Corassão – Beleza Como Vingança [naive/MAMBA rec]

“Beleza Como Vingança” é o primeiro álbum de Trypas Corassão e é um disco que se destaca pela multiplicidade sónica que apresenta e que é, mesmo repleta de ingredientes, uma amálgama única de sabores bem apurados. Por aqui há música de clube, experimental ou brega, música interventiva ou música que recolhe inspiração de outros (ouça-se os toques de Gypsy Woman (She’s Homeless) em Viciada em Vc), mas acima de tudo música honesta. Um cântico pela verdadeira liberação, “Beleza Como Vingança” oferece vozes e letras com um papel-central e merece um lugar de destaque na música feita por cá em 2022. DD

usof – Selections 2 [Rotten \ Fresh]

É difícil não olhar para usof (outrora UNITEDSTATESOF) como um dos artistas ambient mais interessantes e ricos do país. Quem vos escreve não é nenhum intelectual do género, longe disso, mas não é a primeira vez que fica maravilhado pela obra de João Rochinha. Naquele que é o terceiro volume de “Selections”, novamente com carimbo da Rotten \ Fresh, usof mostra todo o esplendor que o caracteriza num disco puramente celestial e repleto de minúcia. Urge fechar os olhos do caos que impera lá fora e este álbum mostra isso mesmo – para além de se mostrar como companhia ideal para tal. DD

Xexa – Calendário Sonoro 2021

Juntou-se recentemente à Príncipe, mas “Calendário Sonoro 2021” foi editado de forma independente no início de 2022. Ao Rimas e Batidas, disse que “só começou a entender [a sua música] com este trabalho”. Agora, Xexa é um dos nomes a ter mais em conta no panorama atual, dada a originalidade e paixão que se escuta no ambient afrofuturista que compõe. Também canta, como se escuta em alguns apontamentos deste disco ou como ouvimos no Semibreve, e essa é só mais uma das razões que nos levam a querer ouvir mais e mais de Xexa. DD

Outras sugestões de álbuns nacionais de 2022:
Amélia Muge – Amélias [Uguru]
Armando Teixeira – Cidade Modular
Funcionário – Cavalcante [Holuzam]
Gala Drop – Amizade
Hidden Horse – Opala [Holuzam]
Kurtis Klaus Ensemble – Hanau [Coletivo FARRA]
Luís Fernandes – A Guide To Getting Lost [Revolve]
Pal+ – Desire [Variz]
Pedro Alves Sousa – Má Estrela [Shhpuma]
Pixel82 – Infinity [Blossom Kollektiv]
RS Produções – Saúde Em 1º Lugar [Príncipe]
Violet – Transparências [naive]

Textos por Daniel Duque e David Rodrigues

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