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A Cabine

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Crónica

A dance music alimenta-se do público como nenhum outro estilo

3 Agosto, 2020 - 13:50

Miguel Duarte (conhecido por Holldën no mundo da música) fala sobre noite, livestreaming e moralidade em tempos de pandemia.

Não foi há muito tempo que um amigo meu me descrevia, num bulício entusiasta, uma modalidade curiosa chamada “silent disco”, assente no conceito de discotecas sem som. Nesse formato, o assalto infernal do PA seria substituído pelo roçagar de tecidos, o clímax da plateia pelo ocasional uivo solitário, e o DJ — por ora relevante — encaminharia a sua cavalgada sónica para auscultadores individuais diligentemente colocados na cabeça de cada raver.

Tal geringonça representaria, segundo ele, o futuro, e seria o remédio definitivo para a conflituosa relação entre animação nocturna e zonas habitacionais.

Ocasionalmente, as fronteiras do sector são abaladas por experiências semelhantes, visando antecipar tendências na relação entre a bolha musical e a sociedade em redor. Este tipo de novidades enquadra-se ainda numa preocupação maior, associada à crescente digitalização do meio, cujo pesadelo, para produtores e DJs, assume a forma de “algoritmos artistas” que viriam emprestar à produção musical — particularmente na música electrónica — um grau de eficiência que tornaria o factor humano obsoleto, efectivamente despromovendo a música para uma categoria de som ambiente subalterna à bebedeira sacramental da plateia.

Porém, o Covid-19 veio despejar um balde de água fria sobre todos esses cálculos. Obrigou-nos a recalibrar noções enraizadas e a suspender outras em vias de enraizamento. Apesar dos inglórios esforços de uma infindável armada de DJs, plasmados na febre caricatural do livestreaming, cada hora de farsa doméstica apenas agudizou a convicção de que o público é o factor que une toda a experiência da dance music, um conceito nascido da humanização do funcionalismo mecânico imposto por homens a outros homens — efectivo mas emocional, cirúrgico mas ritual.

A visão de cidades suspensas, discotecas vazias e cortinas cerradas deixou penosamente evidente que não existe um substituto plausível para a partilha presencial do momento. Nenhum par de auscultadores, videoprojecção ou romantização postiça pode simular o compromisso colectivo no extremo receptor da música, a dimensão física do PA ou o frémito sensorial de rostos, corpos e gritos unidos na apoteose do som. O club é sexo na plenitude do gesto, como o iPhone é castração por mil golpes. Um carrega o estandarte da realidade em movimento, o outro o suspeito aroma de memórias contrafeitas.

Entre confinamentos e desconfinamentos, curvas e contra-curvas, é impossível discernir até que ponto é recomendável, ou não, reabrir “a noite” do país. É difícil conciliar a asfixia do sector com a imagem de transportes lotados ou um Avante! apinhado de festivaleiros. Os países que tentaram fazê-lo obtiveram resultados mistos. Se alguns surtos tiveram como epicentro bares ou discotecas, não é menos verdade que outros despoletaram em igrejas, manifestações, explorações de gado, restaurantes ou lares de idosos — tudo actividades abençoadas por uma aura de “normalidade aceitável”.

No meio disto tudo, o que é por demais óbvio é o desprezo das forças governativas nacionais para com o calvário de artistas, staff e organizadores. Há um certo paternalismo político, que melhor aplicação teria se incidisse sobre bancos e empresas públicas em perpétua negligência e contínua falência. Sem um plano de reabertura, e sem apoios musculados, a crise no sector pode estender-se por anos. Uma coisa é certa, porém: máscaras e distanciamento resultam. Por isso, à medida que a Primavera de expectativas se esfuma num Verão de desilusões, a reabertura condicionada de locais de diversão nocturna torna-se um imperativo moral que deve ser considerado paralelamente a precauções epidemiológicas. Ainda que se arrisque um interminável ciclo de fechos e reaberturas, impõe-se cada vez mais a pergunta: é legítimo impedir que “a noite” lute pela sua sobrevivência com as mesmas ferramentas ao dispor de outros? Não é a omissão de um horizonte de esperança o maior falhanço de qualquer governação?

Fotografia por Rúben Marrocos

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