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Diana A.

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Entrevista

Jorge Correia sobre Escuro: “O driver não é o dinheiro, é a paixão pela música sobretudo”

26 Novembro, 2019 - 10:52

Jorge Correia, um dos cabecilhas do Escuro, também conhecido por Raver’s Diary, conta-nos como começou um dos coletivos de techno da capital.

São cada vez mais as produtoras que têm surgido dentro dos mais diversos estilos, e cada uma delas tem um papel na revolução que o país tem vindo a sofrer. No entanto, Escuro só há um. Depois de um primeiro evento no Musicbox, o coletivo celebrou o segundo aniversário na sua nova residência no Arroz Estúdios, em Cacilhas, a 20 de abril. Por essa e outras razões, recuperamos a nossa conversa com Jorge Correia (tcp Raver’s Diary) em 2018 para saber mais sobre este projeto.

Sentado à minha frente, Jorge Correia começa por dizer que “o Escuro começou com duas pessoas, eu e o Vanderley Neves (Van Der). Em 2007 tocávamos em bares e pequenas festas. O techno não tinha a mesma expressão que tem hoje em dia, onde tens imensas ofertas e discotecas”, acrescentando que “naquela altura, se calhar, havia um Lux e pouco mais do que isso. As grandes produtoras como a LX Music também estavam a começar e foi aí que começámos a passar música”.

Ainda assim, desde 2007 até 2017, ano em que o Escuro efetivamente se tornou Escuro, muita água correu. Para melhor compreender todo o processo, Raver’s Diary faz-nos uma pequena introdução sobre si. Estudou música e guitarra clássica e, depois disso, começou a produzir música: “quando comecei a produzir não tinha os meios necessários – isto há 10 anos – para criar um projeto desta natureza. Não tem nada a ver, na altura tínhamos um computador, um controlador, uma coisa muito básica”.

Para Jorge, a música não assumiu de imediato o papel principal. Trabalhou em consultoria e vingou, chegando a manager, a sua função antes de ter abandonado o mundo empresarial, um currículo profissional que foi desenvolvendo e que se tornou fundamental para o lisboeta durante a criação do Escuro em 2017. Mas afinal, como nasce este projeto? Jorge Correia explica que o coletivo “nasce depois de muitas conversas entre mim e o Van Der, duas pessoas completamente apaixonadas por este género de música”, e continua por dizer que “a ideia já estava concebida há algum tempo, não tínhamos era os meios para criar o projeto”.

“No início”, conta-nos, “começamos uma vertente muito organizativa porque era numa perspectiva muito de organização de eventos e foi esse o nosso mote inicial, mas rapidamente mudamos para uma perspectiva mais de produção de música e de apostar na criação de um coletivo de músicos que se queriam dedicar a fazer música fosse em que forma fosse. Fosse através de produções de músicas, fosse através de concertos ao vivo – live sets – que é se calhar o que nos distingue mais de outros projetos; é que nós temos música ao vivo techno”.

Para finalizar este tópico, Jorge remata que, “inicialmente, era eu e o Van Der, mas rapidamente se juntou a nós, para aí na terceira ou quarta festa, o Pedro Velas, agora só Mocho. Juntou-se ao projeto porque nós procurávamos alguém que conseguisse fazer projeções de vídeo para juntar isso a performance de música ao vivo. O Pedro foi uma pessoa que chegou a nós através do envio de material, na altura nós éramos um embrião, e descobrimos ali uma pessoa com um talento extraordinário. É quase um cientista. Eu acho que ele é mesmo underrated na cena techno nacional”.

Como se sabe, no entanto, nem tudo são rosas. “É muito difícil só vivermos da música como músicos. O Pedro acabou por se desligar um bocadinho do projeto para se dedicar ao trabalho. Está em stand-by. Entretanto continuamos nós os dois [Raver’s Diary e Van Der]. Neste período de um ano, aconteceu muita coisa. É difícil”, explica-nos Correia. Sendo um coletivo novo, e em certa medida diferente dos restantes, a aceitação por parte do público foi demorada: “Na primeira festa olharam para nós e disseram ‘Quem são estes gajos? O que é que estão aqui a fazer?’. Nessa primeira festa que fizemos, no Fontória, tínhamos 27/28 pessoas. É super interessante ver o crescimento que o projeto teve neste último ano, também fruto de investimento da nossa parte, como promoções no Facebook. (…) O projeto teve um boom super interessante no início de 2018. Acho que as pessoas hoje aceitam-nos. Acho que no início não aceitavam. Mas também é um projeto que está cingido a um nicho, não é uma música muito comercial para apelar às massas. Também nunca foi esse o nosso objetivo. Sempre foi lançar música para cada um de nós. O meu driver não é o dinheiro, é a paixão pela música sobretudo”.

Por esta altura, na nossa conversa, consigo ver que os olhos de Jorge não mentem. É visível o seu amor pela música e por este projeto que tem crescido sustentavelmente. Daí, refiro o momento em que vi o nome Escuro pela primeira vez e de como me chamou à atenção por uma estética underground, incluindo do próprio logo, ao que Raver’s Diary responde que “é verdade, é muito cru. O nosso conceito parte exatamente disso, nós não temos nenhuma indicação em termos de fio condutor das músicas que cada um passa. Há uma liberdade criativa. Não há nenhuma indicação sobre o tipo de música. Somos livres.”

Entretanto, falamos sobre desafios: “não procuramos nada: sponsorships, apoios, são convites que vão surgindo. Se nós temos qualidade as coisas vão surgindo. Há uns que estão melhor relacionados do que outros e, portanto, conseguem mais”, não deixando de referir, no entanto, que oportunidades como a da Rádio Breca são importantes para “passar música e atingir outro público que não conseguimos atingir em Lisboa”.

Sobre a cena de techno em Portugal, Jorge acredita que “Lisboa tem um circuito muito fechado”, algo que não vê acontecer a norte: “no norte é mais livre. O Escuro no Porto mais facilmente vingava. Cá as pessoas querem ver nomes de artistas. Eu nunca fui assim. Gosto de ir ouvir boa música. Gosto de descobrir coisas novas. Basta veres as festas. Está tudo orientado a isso. Circuito repetitivo. Os DJs principais são sempre os mesmos. Eu gosto de fazer as coisas com qualidade e isso exige tempo e dedicação”.

Falando ainda sobre dificuldades que o Escuro sentiu ao longo da criação e consolidação do projeto, Jorge salienta a dificuldade em arranjar espaços como o problema principal: “o projeto estava a crescer imenso no Fontória, tínhamos um local para uma residência mensal, todos os meses havia lá uma festa. O dono do Fontória decidiu fechar o espaço”. Nos últimos tempos, o coletivo esteve por uma outra casa, o Arroz Estúdios. Jorge explica o desafio que é encontrar um espaço “para apresentar as nossas músicas”: “tens que reservar com enorme antecedência. Não há sítios em Lisboa. Os tradicionais já estão fechados àquele circuito, os coletivos e produtoras que vão surgindo têm dificuldade”.

Questionado acerca de perspectivas para o futuro, Jorge Correia afirma que quer internacionalizar o projeto, explicando que “se te cingires ao mercado nacional estás limitado, não estás a tirar todo o potencial que o teu projeto pode ter. Mas primeiro acho que o devemos consolidar ainda aqui em Lisboa. O mais imediato é o lançamento da editora” e o Escuro já tem “música produzida, pronta a ser editada (…) é só pôr mãos à obra”. Tendo esta entrevista acontecido em julho de 2018, confirmámos, entretanto, que o lançamento da label está prestes a acontecer.

Na reta final da nossa conversa, falámos sobre a qualidade da música e do que está por detrás de um bom live set, algo que não é tão comum no universo das festas de techno em Portugal: “As pessoas não ligam nada a isso. Eu demoro uma hora a montar o meu live. O que nós recebemos não paga o trabalho de montar, criativo. As pessoas não querem saber se a música é ao vivo ou se é um DJ”, refere Jorge, que lamenta o reconhecimento “nulo”. Ainda assim, Raver’s Diary olha com orgulho para o projeto e para o seu outro membro fundador, Van Der, que “evoluiu imenso. Ele tem um techno muito industrial, baseado em Berlim, muito forte, muito power, tem uma componente psicadélica muito forte. O meu é mais cru, mais raw. Há pessoas que já se deslocam para ir ver o Van Der. Está no bom caminho”, e podemos dizer que o Escuro também.

Hoje, o Escuro conta com seis elementos, Trémulo, Aleksi Torabi, Raver’s Diary, Van Der e HumTro. “Recentemente”, explicou-nos Jorge este mês, “o Gagat (CCSD) começou a tocar connosco e objetivo é que faça parte do nosso line up em eventos futuros”. “Em paralelo”, remata o fundador do coletivo, “criei uma label chamada Kepler Live onde o objetivo passa por promover artistas emergentes do techno, sendo que temos planeados alguns EPs a saírem nos próximos meses”. Até lá, e ao lançamento do “álbum do Escuro”, podem ouvir os primeiros releases da Kepler Live.

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  • Maria da Conceição Vieira Pinto

    Reply
    26 Novembro, 2019 - 23:15

    As musicas sao relaxantes e por isso gostei

    As musicas sao relaxantes e por isso gostei, considero o vosso trabalho de grande utilidade. PARABÈNS

    (Maria Pinto)

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