AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

“Sycamore” é “mais um reflexo da jornada” de Pedro Goya

19 Maio, 2021 - 12:45

Pedro Goya está de regresso com um novo longa-duração. “Sycamore” chega mais de 10 anos após o primeiro álbum e é “mais um passo” na já longa carreira do experiente DJ e produtor.

Mesmo com uma pandemia ou com “uma separação de uma relação muito longa”, Pedro Goya não acredita que uma “qualquer epifania ou momento esotérico tenham despertado a criação do álbum”. Este calejado nome da cena portuguesa vê antes esses dois momentos como um despoletar da atenção que passou a dedicar à construção deste disco, para o qual chegou a ter “30 ou mais possíveis candidatos”.

Com passagens por editoras como Classic Music Company, de Derrick Carter, ou por clubes em Berlim (Watergate), Moscovo (Propaganda) ou Nova Iorque (Resolute, Analog Bkny), Pedro Goya é um nome que carrega uma carreira de duas décadas nas costas. Embora hoje os seus discos sejam um “balanço entre criatividade e visão funcional”, no início Goya criava “sem qualquer conhecimento técnico”, como explica nesta conversa.

Como se pode ler na biografia disponível no seu site, “a passagem das cabines para o estúdio foi natural e hoje não vive sem programar caixas de ritmos”. Nos seus primeiros discos, Pedro Goya colaborou muito com Del Costa (Magazino), com quem assinou trabalhos para labels como Exun ou Music For Freaks. Sucederam-se outras tantas colaborações e lançamentos a solo, como é caso do seu álbum de estreia, “Made To Measure”, lançado em 2009 pela sua extinta editora Troia Recordings e no qual já era possível perceber que Goya não gosta de se cingir a uma só estética.

Agora, o setubalense regressa com toda a força em “Sycamore”, álbum dividido em dois discos de vinil e composto por nove temas que passam por diferentes géneros e influências – como que um reflexo de toda a história e experiência de Pedro Goya. Sempre com seriedade e coesão, por aqui somos levados até ao techno ou até ao house francês e muito mais, num trabalho em que tanto se escuta linhas de baixo acid vindas de uma 303, como cowbells vindos de uma 808 ou melodias que nos remetem para um tempo agora distante que tem um pé no presente e futuro.

Mais tarde, talvez surja uma edição digital quando o álbum “esgotar fisicamente”, como revela o DJ e produtor nesta entrevista conduzida via email. Até lá, aproveitem a reabertura dos espaços para tocar temas deste disco. Nós agradecemos.

Podes encontrar o novo disco de Pedro Goya em exclusivo na Deejay, mas podes ouvir as habituais previews abaixo, através do SoundCloud.

Como tens enfrentado esta pandemia? As saudades das cabines são muitas?
A minha vida não mudou de forma radical, excepto as saudades da cabine, de poder jogar ténis diariamente com um parceiro ou simplesmente ser livre para fazer ou estar com quem me apetecer. Os meus patudos, família e trabalho diário no estúdio (produção e serviços regulares de mixdown & mastering) mantêm a minha sanidade mental com saldo positivo. De resto, acho que estou de lockdown desde 1999 [risos]. Desde sempre que passo dias, semanas e meses a fio enfiado no estúdio.

De resto, tenho-me adaptado a esta nova realidade como qualquer outra pessoa. Não há outra solução!

Tens inúmeros discos em vinil na tua coleção, lançaste outros quantos nesse formato, mas nos últimos tempos tens apostado no digital, como foi o caso dos remixes exclusivos que lançaste no Bandcamp. Quando e como é que se deu a tua transição para o digital? Como é que encaras este formato?
O meu foco e dedicação serão sempre as edições em disco de vinil (físico). Não por uma questão de hype, estilo, moda ou outra razão qualquer. Tem simplesmente a ver com foco e superação pessoal. O facto de fazer discos “reais” e investir neles financeiramente, obriga-me a ser pragmático e funcional, pois tenho que recuperar o meu investimento para poder ir fazer o próximo disco.

O breakeven é um reminder constante. Não me posso debruçar sobre os meus temas e lançamentos só e unicamente com uma perspectiva artística. Iria ter muita música incompreendida e a ganhar pó nas lojas de discos. Portanto, os meus discos são um balanço entre criatividade e uma visão funcional dentro de uma esfera coerente daquilo que considero bom.

O Bandcamp é simplesmente um escape artístico onde tenho controle absoluto sobre a minha música sem ter que recorrer a terceiros e onde posso “escoar” muita música que não partilha muito deste foco e pragmatismo tido em conta num disco físico. Passou a ser também uma forma de disponibilizar digitalmente o que havia só em formato físico mas que, entretanto (e felizmente), esgotou.

No entanto, o teu novo álbum “Sycamore” vai sair apenas em vinil. Por que razão tomaste esta decisão? Não vai haver formato digital mais tarde?
As razões que mencionei anteriormente, aplicam-se de igual modo ao novo álbum. A haver mais tarde em formato digital, será só e apenas no Bandcamp e quando esgotar fisicamente.

Como é que se deu a vontade de compor um novo álbum? E como é que foi todo este processo?
Quando fazes música de forma regular e toda essa música te gera emoções distintas, um álbum começa a ganhar forma na tua mente. Depois é tudo uma questão de delineamento e execução. Quando está na altura certa, sentes isso. A própria música te diz isso.

Ouvem-se diferentes estéticas, sentimentos e géneros neste disco. Onde é que foste buscar inspiração para trabalhar nestes nove temas?
Para chegar a nove temas, tinha uma pilha de 30 ou mais possíveis candidatos. A pandemia e uma separação de uma relação muito longa foram possivelmente os triggers que me fizeram focar a 200% na criação do álbum “Sycamore”. A inspiração é tida diariamente… com a vida! Não houve qualquer epifania ou momento esotérico que me fizeram despertar para a criação do álbum. Crio música numa base diária, e quando achei que tinha conteúdo funcional, intemporal e versátil o suficiente, as peças do puzzle encaixaram todas e o álbum apareceu.

O que é que este álbum significa para ti? Como encaras o resultado final?
Este álbum é mais um passo na minha carreira. É mais um degrau que subo para atingir os objetivos que quero. A criatividade e ambição são duas constantes na minha personalidade. Este álbum é mais um reflexo dessa jornada.

Este deve ser um momento importante na tua carreira. Há algum outro que recordes com carinho?
O início de tudo traz-me alguma saudade e carinho. Quando criava sem qualquer conhecimento técnico e sem 1/1000 das condições que hoje tenho. Alguns dos melhores discos que produzi, foram feitos num computador Compaq branco, com as colunas de PC Compaq [risos] e um sequenciador/DAW de nome Acid Pro. Era tudo tão cru e genuíno!

Se pudesses, gostarias de dar algum conselho ou palavra ao Pedro Goya de há 20 anos?
Nenhum. Na música ou na vida sempre fui guiado pela tentativa e erro. Acho que só assim realmente aprendes e cresces enquanto pessoa e artista.

Fotografia por Pedro Francisco

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