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Entrevista

Puçanga: a música como cura e combustível

3 Setembro, 2021 - 10:47

Pelo Brasil, Puçanga significa remédio caseiro, mezinha, feitiço. Por cá, é também sinónimo de Vera Marques, produtora e compositora da Margem Sul inspirada pelo místico, o emocional, o político e, acima de tudo, o coletivo humano.

Lançou recentemente o álbum (ou mantra) “Fazer da Trip Coração” e é já este sábado que toca no Palco Paz da Festa do Avante. Puçanga é o alter-ego de Vera Marques, compositora e produtora natural do Miratejo que “cria instintivamente sobre a expressão da susceptibilidade humana e a diversidade cultural, identitária e sexual através da voz, da influência comunitária e da construção de memórias”, diz a Gruta Trax nas notas de lançamento.

Cresceu próxima de um sapal à beira-Tejo, rodeada por fábricas abandonadas e, claro, música. Estudou Cinema, que a conduziu para mais perto da arte do som. Tinha vergonha de cantar em público até aprender alguns acordes na guitarra e começar a cantar na rua e em transportes públicos. Esteve em Paris e Buenos Aires, onde fez parte de manifestações e movimentos populares em grande escala e se aproximou do folclore latino-americano. Desde então, preza a união do povo através do amor e da música. Conjura a libertação, admira o saber popular e, além da eletrónica, explora a voz como instrumento sonoro enquanto evoca momentos históricos de fragilidade e opressão social.

A Cabine esteve à conversa com a artista para descobrir mais sobre os primeiros passos do projeto e as metas a que pretende chegar, como as Histórias Invisíveis, ao lado de Petra Preta na Escola Miradouro Alfazina, ou os Circuitos de Voz. Sabe tudo na entrevista abaixo.

De onde és, Vera? Como surgiu este amor pela música?
Cresci na Margem Sul, em Miratejo – zona suburbana mesmo ao lado de um sapal selvagem do Tejo, com edifícios de indústria abandonados e flamingos no Verão. Miratejo é um sítio com alta confluência de culturas e embrião de muita música, principalmente hip-hop, tal como em Almada, por onde sempre circulei.

A música sempre foi minha companheira fiel. Antes cantar gerava-me extrema vergonha mas aprendi acordes na guitarra e comecei a tocar na rua e em transportes. Cantar nessa altura começou a ser viciante e libertador, como se carregasse num botão e, puf!, electricidade. Eu na verdade estudei Cinema, em Portugal e França, e nessa altura desafiei-me mais na música, que passou a ser uma dimensão mais intensa e necessária. Esses anos foram muito transformadores porque a minha consciência política desenvolveu-se, com o contacto com amigxs da América Latina, com a descoberta do feminismo e transfeminismo e por estar a viver em Paris, cidade hostil e xenófoba.

Após isso, pude ir para a Buenos Aires, estava a estudar sobre cinema político latino-americano e os movimentos de descolonização. Mudou a minha vida completamente – estar numa praça com milhares de pessoas a gritar todas juntas “30.000 desaparecidos. Ahora y siempre! Ahora y siempre!” no dia 24 de Março (dia da memória do início da ditadura militar). Foi o começo de viver numa sociedade com movimentos populares massivos, descobri que existia um plano em curso para a construção de uma memória histórica diferente (contada pelas pessoas e não pelos grupos dominantes). Iniciativas legais e culturais fortes em relação à identidade de género. A música, o amor e o folclore todos misturados. Tudo isto influenciou a minha música, os meus projectos, a minha percepção. Continuei a tocar na rua e no metro, apaixonada pelo folclore latino-americano mas também a explorar a voz, em projectos experimentais, ruído, microfones piezoeléctricos. Fiz um curso de composição musical com o Ricardo Cappellano que construiu a minha forma de pensar na música numa direcção diferente, um espaço orgânico de sons, silêncios, ritmos e texturas.

E agora em Portugal todas estas coisas continuam a ser um insight nas minhas criações. Ando a conhecer melhor o folclore. Estou atenta aos projectos ligados à construção de memória histórica em Portugal e a criar os meus próprios. Voltei a circular em Almada e a fazer parte de vários espaços associativos. Tenho passado a maior parte do meu dia com crianças a criar projectos artísticos. E tenho organizado Circuitos de Voz – encontros em grupo de experimentação sonora. Puçanga nasceu da música electrónica, da exploração com a voz e deste movimento todo. O meu primeiro álbum “Fazer da trip coração” foi lançado em março pela editora Gruta.

O que significa e o que é para ti “Puçanga”? Porque escolheste este nome?
Rhyme, rhythm and remedy. É um remédio caseiro, DIY. A música como cura, como poção ou como experimento físico.

Recebeste a bolsa de criação da Associação OUT.RA. Foi uma boa oportunidade para ti? O que pretendes explorar no futuro?
Sim, recebi o apoio da OUT.RA para a criação do meu segundo álbum que estou agora a produzir. Neste álbum estou a focar-me mais na voz, mais sonoridades e lugares. Paralelamente à música em si, estou a continuar a organizar Circuitos de Voz gravados e conversas que exploram a ideia de voz. A ideia é explorar os vários lugares que a moldam e a ocupam. Numa voz podemos pensar em vários contextos e influências: região, etnia, história, identidade, geografia, ambiente natural à volta, vivências, visão política, etc. Quero desenvolver essa ideia em forma de encontros colectivos, conversas gravadas, experimentações gravadas.

Também é importante estar a ter este apoio técnico por parte da OUT.RA e estar cada vez mais próxima da comunidade barreirense porque tem grandes artistas, historicamente muito activxs, em constante contacto e união.

Fala-me um pouco do teu álbum “Fazer da Trip Coração”.
O nome do álbum é uma play with words de um provérbio. Está a dizer a mesma coisa que o provérbio original – tornar as adversidades em força. Essas adversidades podem ser bad trips ou apenas trips, mas prefiro olhar para elas sempre como viagens (com o coração).

Os provérbios são saberes populares e eu admiro essa habilidade humana. A música tem uma função muito importante nesse mundo da tradição oral. Comecei a interessar-me muito pelo folclore há pouco tempo porque antes associava-o erradamente ao fascismo, os ranchos folclóricos, etc. Mas fui perceber que o folclore foi é completamente apropriado e tipificado pelo regime salazarista. O folclore não é aquilo, é supostamente uma coisa viva e não um resgate da direita. Vem do meio rural, sim, mas mostra muito das dificuldades das pessoas, das suas ambições e lutas, das paisagens. Em Puçanga, trouxe esse mundo através da minha faixa Cantiga da Ceifa.

Todas as faixas do álbum têm sonoridades electrónicas, ruído e explorações com as frequências e beats variados. Brincar com frequências deixa-nos explorar espectros muito mais amplos e dark do som e da música. E acho que eles são mais fiéis ao tipo de paisagem sonora que oiço à minha volta e que muitxs de nós vivemos hoje em dia nas cidades.

O que te move para compores as tuas letras e melodias?
As texturas das frequências criam melodias quase sozinhas. Mas em geral vou criando instintivamente com a voz.

As músicas e as letras surgem muitas vezes de acontecimentos dos quais quero construir memória. A Damas Buédelindas surgiu de uma dança em rodinha com amigas mulheres numa festa em que tocava o DJ Nervoso. A Sentimientos Sociales tem uma gravação das Avós da Praça de Maio em Buenos Aires a gritar “Presente!” a uma lista de pessoas desaparecidas na ditadura.

Acho que me interesso muito em pensar e escrever sobre o tema do poder, sobre como ele está instaurado de uma forma errada na sociedade. Power to the people, not to the gate keepers! Vivemos num sistema cada vez mais subtil na sua forma de exercer a força, o controle e a extração. Ainda completamente modulado através de uma estructura eurocêntrica, racista, colonial, neo-liberal. A vida existe para gerar vida. E poder também, mas um poder colectivo, cooperativo, livre, misturado, sem bandeiras nem territórios invadidos. Mesmo o feminismo vem muitas vezes mastigado pelo capitalismo com uma ideia de empoderamento. Eu não quero propriamente sentir-me empoderada sozinha, quero antes procurar formas de apoio mútuo, sentir que posso criar espaços com diversidade e partilhar lugares de vulnerabilidade também. Acho que as maioria das faixas do álbum andam à volta destas ideias, umas mais literais outras mais poéticas, mas expõem inseguranças, medos e sonhos.

Como vês a cena musical lisboeta?
Eu estive fora quatro anos até 2019, por isso não sei se estou super dentro da cena lisboeta. Mas a cena lisboeta é composta por muita gente que não é de lá, do subúrbio norte ou da margem sul, que veio viver para Portugal ou que está de passagem. A gentrificação tornou Lisboa mais exclusiva, difícil de morar, mais precária, mas por outro lado, curto sentir que está cada vez mais internacional, principalmente com a influência da comunidade brasileira e latino-americana. Isso veio ajudar a levantar os nossos fantasmas coloniais julgados adormecidos e forçar a sociedade portuguesa a confrontar-se com o facto de ser um país estructuralmente racista, conservador e com ideias perigosamente românticas sobre o colonialismo. Estão a agitar os rígidos brandos costumes.

Tens alguma inspiração em particular? E alguma outra paixão que não a música?
Em música, infinita. Sou fascinada por pessoas que têm a força delas na voz, Björk, Eykah Badu, Maria João, Elza Soares, Amparo Ochoa, Cesária Évora, Camarón. Ou quem usa a música como arma claramente política, Zeca Afonso, Zé Mário Branco, Violeta Parra, Linn da Quebrada. Poetas urbanos, Allen Halloween, Sasha Satya, Sara Hebe, Kate Tempest. Artistas que exploram outros lugares do folclore, Rodrigo Cuevas, Susy Shock, Bruja del Texcoco. Amo ruído. Gosto de techno e de música electrónica que crie um bom rave ambient. Também se descair mais para afro house e kuduro, como Nigga Fox ou Nídia, ou cenas mais orientais como as minhas descobertas recentes, Deena Abdelwahed ou Electrosteen. Também amo música mais orquestrada com arranjos elaborados tipo Jun Miyake.

Para além da música, inspira-me o contexto social e político. É importante para mim sentir que estou a construir algo colectivo. Em Setembro, vou começar o projecto Histórias Invisíveis que criei com a minha amiga-irmã Sara Graça (Petra Preta). Vai acontecer na Escola Miradouro Alfazina, no Monte da Caparica, um bairro com uma grande comunidade cigana, afrodescendente e descendente de emigração. O objectivo é experimentar com xs alunxs vários tipos de arte e também repensar a História – abordar a História oficial do ponto de vista dos direitos humanos, da ideia de identidade, para construir uma memória histórica justa. Perceber quais são as histórias invisíveis que faltam acrescentar à sociedade, aos livros, aos media, à rua.

Há planos para colaborações no futuro? Há algum artista com quem gostarias de colaborar?
Muitas pessoas. Interessa-me muito manter a rede que tenho com a América Latina e criar rede internacional. Irão surgir várias colaborações futuras e movimentação itinerante. Estou também a planear criar uma associação ou cooperativa que pode albergar vários projectos, trabalhadorxs, artistas.

Quem quer ser a Puçanga enquanto artista? O que é a arte para ti?
O acto de criar é como um gerador de energia vital estranha e quase sobre-humana. O combustível é a imaginação que se transforma em electricidade. Faz-nos poder ser mais resistentes para concretizar as nossas utopias. A arte tem esse poder de criar raios sinápticos directamente no corpo, percepcão e memória. Mas só faz sentido quando tem uma dimensão social ou política. O que ela faz é criar linguagens, desde quando vivíamos em cavernas. E essas linguagens não caem no vazio, têm uma condição social já por si, são alguma espécie de amuleto ou ferramenta que nos deixa olhar, pensar ou sentir de que forma é que estamos a viver, bichos numa sociedade, dentro de que sistemas, que crenças, que ideias, lutas, condicionamentos, opressões, contradições. E ela também tem o poder de inventar tudo isso – inventar que mundo achamos justo viver. Nunca do zero, porque o contexto social está sempre lá a exercer os seus feitiços.

Fotografia por Mark Angelo, artwork do álbum por Petra von Preta (Sara Graça)

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